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BragançaPaulista18 Jan 2018


Colunistas


Um período de expansão cultural na Bragança do início do século passado
Quarta-Feira,  24 MAI 2017
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 Quem passar defronte o vetusto edifício do Teatro Carlos Gomes, que abrigou o Círculo Musical Carlos Gomes e depois o Colégio Diocesano São Luiz, situado no antigo Largo da Cadeia, nos altos do bairro das Pedras, irá certamente entristecer-se com o estado em que o mesmo se encontra.

Seu estado de abandono é digno de pena, uma vez que tendo sido iniciadas as obras de recuperação daquele importante imóvel que se encontrava em completo estado de deterioração, por questões políticas e por falta de interesse de nossas autoridades foram abandonadas e se assim não fosse, poderia hoje estar sendo utilizado em beneficio de nossa população, com a instalação de repartições públicas ou para outros fins de interesse geral, mesmo porque essa construção faz parte dos imóveis tombados pelo órgão responsável.

Reportando-nos aos apontamentos colhidos aqui, ali, acolá, verifica-se que aquele local foi cenário de realizações culturais e cívicas que tiveram enorme repercussão no inicio do século 20.

Ali se apresentavam Companhias de Ópera internacionais da época e o imponente prédio do Teatro Carlos Gomes, que foi inaugurado em 1898, dotado de feérica iluminação a gás, até a chegada da luz elétrica na cidade.

Atraía grande número de pessoas, umas para apreciar os renomados artistas que ali se apresentavam, outras para conhecer o majestoso edifício. Destacaremos algumas atividades que aconteceram naquele teatro em um ano somente, para que se tenha uma pálida ideia do que representou aquele prédio para a vida artística e cultural de nossa cidade.

No dia 25 de janeiro de 1903, naquele local realizou-se o batismo do estandarte do Circulo Musical Carlos Gomes, doado por gentis senhoritas bragantinas e que teve a participação da Banda Musical Carlos Gomes, que a seguir deliciou a população com um concerto num coreto montado no Largo do Rosário.

No mês de fevereiro do mesmo ano, no Teatro Carlos Gomes realizou-se um suntuoso baile mascarado, que foi a apoteose carnavalesca desse ano de 1903.

A par de realizações folgazãs, Bragança levava a sério a cultura popular. Tanto assim que, em março de 1903, alguns sócios do Clube Literário e Recreativo, cuja sede ainda era situada à Rua Coronel João Leme, ao lado da famosa Casa Pupo, onde hoje existe uma loja para venda de artesanato, resolveram fundar um grupo dramático, ficando acertado que a primeira exibição teria que ser feita no Teatro Carlos Gomes, o que aconteceu no dia 11 de abril de 1903, quando foram levados à cena o drama “O nobre e o plebeu” e a comédia “Malditas cartas”.

Os componentes do corpo cênico eram os seguintes: Sebastião Maciel, Abílio Carvalho, Henrique Midon, Joaquim Diniz, Caetano Zappa, Bento Escobar, Aleixo Lentino e as senhoritas Amedea Centini, Guilhermina Armani e Zaira Colombi. O mestre de cena (hoje diretor artistico) era o sr. Adolfo Corrêa de Barros, que foi durante muitos anos escrivão do Cartório de Registro Civil desta cidade.

Destarte, o ano de 1903, segundo registram as crônicas, foi pródigo em grandes apresentações no Teatro Carlos Gomes, onde também se apresentou a internacional Companhia Lírica Rotoli e Peri, representando “O Guarany”, de Carlos Gomes, e no espetáculo final “La Boheme”, de Puccini, obtendo os aplausos da seleta platéia bragantina.

A partir daí, outras companhias apresentaram-se naquele local e, sucessivamente, as apresentações artísticas enchiam o calendário litero-musical de nossa terra, demonstrando a preocupação popular no sentido do enriquecimento de sua cultura, o que dava à nossa terra uma posição de destaque no campo cultural de nosso Estado.

Com o decorrer do tempo, a vibração popular já não era tão intensa e fatores adversos contribuíram para que o teatro fosse desativado. Foi usado como salão de bailes, arena de patinação e para concertos musicais. Mais tarde funcionou no prédio o Colégio Diocesano São Luiz, dirigido por padres agostinianos e cuja duração perdurou por muitos anos.

Ali se abrigaram também a Faculdade de Ciências e Letras e o Colégio Técnico João Carrozzo, que tinha como diretor o ilustre prof. dr. Nelson Carrozzo, tendo sido desativado o referido estabelecimento de ensino após o falecimento de seu diretor. Finalmente, o prédio passou a ser de propriedade municipal.

Hoje, o prédio do Teatro Carlos Gomes é apenas um espectro daquilo que um dia foi. Nossa esperança é que sua reforma seja efetivada antes que o prédio desmorone por abandono e um dia possamos vê-lo como era antigamente, pois o Teatro Carlos Gomes faz parte da nossa história.

JOSÉ CARLOS CHIARION é advogado, escritor e membro da Associação dos Escritores (ASES). Foi vereador; colunista do Bragança-Jornal Diário; participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.

EM TEMPO: Acompanhe toda sexta-feira, no “Altiora Jornal” exibido pela nossa TV Altiora, às 19:00 horas, a “Agenda Cultural”, onde cada semana um assunto dos aqui por nós abordado é comentado pelo jornalista Fabio Silverio, com a colaboração fotográfica de Luis Antonio Palombello.