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BragançaPaulista22 Jan 2018


Colunistas


Cuidado dos cuidadores
Sábado,  20 MAI 2017
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 Alguns fatores elevaram nos últimos anos o número de pessoas que informalmente cuidam de outras pessoas enfermas ou idosas. Também é crescente o número daqueles que se preparam e adotam a profissão de cuidador.

Essa ocorrência está ligada ao acentuado crescimento da população brasileira que em 1950 era pouco superior a 50 milhões, em 1980 estava próximo de 120 milhões e, hoje, já ultrapassa a casa de 200 milhões.

Uma das consequências dessa expansão populacional é o crescimento do número de brasileiros idosos ou doentes que requerem cuidados especiais. Essa tendência é reforçada pela expectativa de vida que hoje está na casa dos 75 anos, quando há 3 décadas não chegava a 62 anos de idade.

Pelo menos dois fenômenos atuais se associam a esse crescimento do número de pessoas que necessitam de cuidados especiais. As famílias cada vez mais têm menos integrantes. O padrão atual é de um ou dois filhos por casal, não raramente vivendo a milhares de kms um do outro.

Os protocolos atuais de internação hospitalar não comportam longas internações. Os pacientes recebem alta em poucos dias, mesmo quando as cirurgias são complexas ou a enfermidade exige cuidados indispensáveis e demorados.

Cuidar de parentes, amigos ou vizinhos não é uma tarefa fácil. Parece que alguns já nascem com esse dom. Muita gente tem enorme dificuldade de conviver com uma pessoa idosa ou cuidar de pessoa enferma, mesmo quando esta é pai, mãe, irmão ou outro parente próximo. Frequentemente essa tarefa acaba ficando nas mãos de uma ou de poucas pessoas. Muitos tomam distância, afastam-se, negligenciam.

Sob o título de “Quem cuida dos cuidadores?”, a Revista Carta Capital, do último 7 de maio, apresenta alguns dados preocupantes sobre a situação dos cuidadores: “Conforme pesquisa internacional, em 63% dos casos, os acompanhantes morrem até 4 anos antes do familiar ou amigo por quem zelam”.

Ainda conforme o artigo mencionado, o cuidador se torna responsável por ajudar todos os dias uma mãe, um avô, um parente ou vizinho com suas necessidades básicas: tomar banho, comer, se vestir, medicamentos e transporte. Às vezes, realizam inclusive tarefas mais específicas, como aplicar injeções, fazer curativos, trocar cateter e cuidar dos tubos de alimentação.

O artigo constata que no Brasil a maioria dos cuidadores de idosos enfermos ou dependentes são outros idosos, normalmente mulheres da mesma família que não recebem para isso. Constata também que devido ao esforço e tempo que é demandado, esses cuidadores costumam descuidar de si próprios, abandonam o emprego, os filhos e marido, o tempo para lazer, desenvolvem insônia, depressão e ansiedade, dores nas costas e nos joelhos por causa da força física que muitas vezes precisam fazer ao trocar fraldas ou dar banho.

O geriatra Fábio Campos Leonel (HC/SP) estabelece uma sintonia preocupante entre saúde do paciente e do cuidador: “Há uma correlação muito forte entre a saúde física e emocional de ambos, quanto mais depende o paciente, mais sobrecarregado e estressado fica o cuidador. Quanto menos saudável o cuidador, mais doente fica o paciente”.

Nenhum de nós está livre de necessitar de cuidados em algum momento de nossa vida. Todos podemos nos preparar para tarefa tão exigente que já pode estar acontecendo em nossa família ou na família de algum amigo. Cuidar de cuidadores é algo com que poucos de nós nos ocupamos.

Alguns cuidadores tendem a querer fazer tudo sozinho, o que também precisa ser trabalhado na relação e diálogo familiar. Como em outros aspectos da vida, a partilha e a corresponsabilidade no cuidado de enfermos e no apoio a cuidadores fazem a diferença.