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BragançaPaulista18 Jan 2018


Colunistas


Como se comemorava o Dia do Trabalho em nossa cidade
Quarta-Feira,  03 MAI 2017
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 Nas conversas com pessoas mais idosas, habitualmente ouvimos dizer que a vida antigamente era melhor, pois essa expressão se atribui ao tempo em que viveram o melhor de sua vida: infância, mocidade e, para a maioria deles, amores e a constituição de uma família.

Nós também recordamos com saudades os piqueniques tradicionais, as reuniões dançantes, os divertimentos saudáveis daquela época e as comemorações que eram feitas nos feriados nacionais, entre os quais o dia 1º de maio, Dia do Trabalho.

Era costume dos operários da Companhia Fabril Santa Basilissa, sob os auspícios da diretoria da firma e do Grêmio Recreativo Santa Basilissa, comemorar condignamente a data que se homenageia a dignidade do trabalho.

O programa seguido anualmente, salvo algumas pequenas modificações, constituía-se em uma Alvorada às 4h30 da manhã pela Corporação Musical Santa Basilissa, dirigida pelo maestro José Aricó, a qual percorria as principais ruas da cidade executando alegres marchas e solenes dobrados, anunciando a chegada do Dia do Trabalho. À frente da Banda seguiam dois renomeados fogueteiros da época e seus ajudantes, os quais eram incumbidos de soltar os rojões, acordando a população ao raiar do dia.

Das 7h30 às 10h30, havia distribuição de enorme quantidade de lanches aos funcionários na sede do Grêmio Recreativo Santa Basilissa, após o que todos partiam para o local escolhido para o piquenique, geralmente na Penha ou no Tanque do Moinho. Durante o convescote todos se divertiam, havendo corridas com prêmios para os vencedores, pau de sebo, corrida de saco e outros divertimentos, entre os quais baile ao ar livre sob os sons do Conjunto Musical do Grêmio.

Famílias da cidade eram convidadas a participar do tradicional evento, as quais levavam comestíveis acomodados em grandes cestos e cujo conteúdo era dividido entre os conhecidos. Eram os tradicionais virados de frango, as empadas, as coxinhas, variados tipos de sanduíche e outros acepipes, muito apreciados na época. Guaranás, sodas limonada, cervejas e vinhos não faltavam na ocasião, sem falar na tradicional “pinguinha” que era distribuída àqueles que a apreciavam.

Eram também enviados convites aos jornais locais para que tomassem parte nas festividades, os quais mandavam seus representantes, que recebiam primoroso tratamento por parte dos organizadores dos festejos.

Entre 16h30 e 17h30 regressavam, pois às 18h30 havia sessão cinematográfica no “Cine Central Theatro”, patrocinada pela Companhia Fabril Santa Basilissa e oferecida graciosamente aos operários.

As solenidades comemorativas eram encerradas com um grandioso baile no Grêmio Recreativo Santa Basilissa, antes do qual, como de praxe, membros da diretoria do referido Grêmio, que durante anos seguidos conduziram os destinos daquela agremiação, entre os quais os senhores José Pinheiro, Davino Pereira do Amaral, Alcides Siqueira Leite, Gentil Marinho e José Agabiti, recepcionavam os diretores da referida Fábrica e demais convidados, ocasião em que os oradores do Grêmio: Américo Bartolomei, Durval Marques e o Aristides Silva (o popular Gaucho) discorriam sobre a data. Usavam ainda da palavra representantes dos jornais locais Cidade de Bragança, Bragança Jornal e O Lyrio (que era muito difundido entre os têxteis), para saudar os trabalhadores pelo seu dia comemorativo e agradecer o tratamento privilegiado que lhes fora dispensado durante as festividades.

Finalmente iniciava-se o grandioso baile ao som do Jazz Santa Basilissa, com presença da Rainha da Santa Basilissa e suas princesas, as quais eram eleitas anualmente pelos operários da referida indústria. Durante a reunião dançante, havia intervalos para distribuição de prêmios aos presentes, encerrando-se na madrugada do dia seguinte, os festejos do dia do Trabalho.

Essas comemorações se deram até o início da década de 1950 e deixaram de acontecer após uma série de acontecimentos nos quais tomaram parte funcionários daquele estabelecimento industrial, ações de fundo político com operários que se rotulavam “comunistas”, insuflando seus companheiros de trabalho a sublevar-se contra seus patrões e a pressionar a firma com ameaças de greves desnecessárias e injustas.

Essas atitudes desgostaram profundamente a diretoria da Fábrica que, a partir daí, cortou os privilégios concedidos a seus empregados, que deixaram de usar o refeitório que havia sido especialmente construído para uso dos mesmos e foi restringido o uso das acomodações destinadas ao consultório médico e posto de atendimento clínico. Além disso, foram admitidos profissionais estrangeiros especializados, os quais tomaram o lugar dos mestres e contra-mestres que ocupavam esses cargos até então e que eram considerados operários de extrema confiança da firma.

A maioria dos empregados, segregados, se sentiu ofendida, repercutindo no trabalho e consequentemente na produção dos tecidos, culminando poucos anos depois, com o encerramento das atividades da maior industria têxtil que nossa terra já possuiu.

Não existindo mais a Companhia Fabril Santa Basilissa, também deixaram de existir o Grêmio Santa Basilissa, a garbosa corporação musical que levava o nome daquele estabelecimento fabril, bem como o afamado Jazz Santa Basilissa, que abrilhantava os matinês dançantes e os bailes realizados na sede do referido Grêmio.

Para nós, que assim como muitos de nossos contemporâneos tivemos a ventura de participar das comemorações do Dia do Trabalho, bem como das matinês dançantes e dos bailes realizados no Grêmio Santa Basilissa, restou a recordação de tudo aquilo que marcou a beleza de uma época que guardamos na lembrança com a mais viva emoção, reminiscência de uma era que não volta mais.

JOSÉ CARLOS CHIARION é advogado, escritor e membro da Associação dos Escritores (ASES). Foi vereador; colunista do Bragança-Jornal Diário; participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.

EM TEMPO: Acompanhe toda sexta-feira, no “Altiora Jornal” exibido pela nossa TV Altiora, às 19:00 horas, a “Agenda Cultural”, onde cada semana um assunto dos aqui por nós abordado é comentado pelo jornalista Fabio Silverio, com a colaboração fotográfica de Luis Antonio Palombello.