BJD
31 máx 19 min
BragançaPaulista17 Jan 2018


Colunistas


A importância da ligação comercial de Bragança Paulista com o Sul de Minas Gerais
Quarta-Feira,  19 ABR 2017
Tamanho dos caracteres

 Até meados da década de 1950, nossa cidade era conhecida como a “Capital do Sul de Minas”, uma vez que havia um intenso intercâmbio comercial com as localidades de Santa Rita de Extrema, Camanducaia, Cambuí, São José de Toledo, Munhoz e Bueno Brandão.

Os lavradores mineiros visitavam com frequência Bragança Paulista para vender sua produção e fazer compras. Os plantadores de cereais e os vendedores de suínos daquela época procuravam negociar seus produtos com comerciantes desta cidade, como os Losasso, Stefani, Simplício, Falabella, Lauletta, Sabella e Virgílio Di Nizo, de quem adquiriam açúcar mascavo, sal, farinha de trigo e outras mercadorias.

Os fundos do Mercado Municipal daquela época eram o ponto de encontro entre os vendedores de suínos que traziam a porcada para negociar com os comerciantes acima citados e com os negociantes de carne de nossa cidade.

Os plantadores de fumo, vindo de várias cidades, entre elas Poço Fundo, faziam seus negócios diretamente com os comerciantes deste ramo nesta cidade e, na maioria das vezes, estes adquiriam do vendedor toda a produção de fumo daquela safra. Outras vezes, eram os negociantes que partiam para as regiões fumeiras do vizinho Estado e ali faziam suas compras, que eram geralmente pagas à vista, mediante a entrega da referida mercadoria nesta cidade.

Nossa cidade chegou a possuir pouco mais de 120 depósitos de fumo em corda, que vinham em estado bruto, isto é, como haviam sido colhidos, apenas em grandes rolos e passavam por um tratamento especial nos estabelecimentos dos compradores. Depois, eram vendidos por meio de experientes viajantes, que visitavam os pontos mais distantes do nosso Estado.

Os fardos de fumo em corda devidamente embalados ou o produto colocado em latas hermeticamente fechadas eram despachados pela Estrada de Ferro Bragantina, que se incumbia de levá-los a seus destinos.

Na mesma época, as farmácias localizadas nas cidades mineiras, se serviam das localizadas em nossa terra para adquirir os medicamentos de maior necessidade, uma vez que os remédios comprados na Capital seriam os de menor urgência, pois demandavam muito tempo para chegar até o local da compra.

Entre as Farmácias que mantinham maior contato com suas congêneres mineiras estavam a Farmácia São Vicente, de propriedade do farmacêutico Vicente de Azevedo e a Farmácia Normal cujo proprietário era o farmacêutico João Marcondes Escobar.

A Farmácia São Vicente localizava-se na Praça Raul Leme, ao lado do Bar, Sorveteria e Confeitaria da dona Catharina Bigon Bertelli, hoje Xará’s Bar e era uma espécie de Consulado de Minas Gerais. Ali os empregados (geralmente o motorista ou o cobrador) da Empresa de Ônibus que servia quase todo o Sul de Minas, vinham trazer enormes listas de medicamentos que iam abastecer as farmácias daquelas cidades.

Possuidor de caráter bonachão, o farmacêutico Vicente Azevedo, muito requisitado por aqueles que necessitavam adquirir medicamentos, sempre tinha um sorriso em seu rosto bondoso e possuía um polido modo de tratar a todos, com cortesia e distinção.

A sua farmácia era o ponto de encontro de alguns moradores de nossa cidade, oriundos de toda aquela região, para um bate-papo e para troca de ideias com seus conterrâneos que aqui viviam, para saber notícias da terra natal ou mesmo para enviar alguma encomenda para parentes por intermédio dos empregados da Empresa de Ônibus ou por algum conhecido que, de passagem por esta cidade, visitava o estabelecimento de Vicente Azevedo.

A Farmácia Normal, situada na rua Dr. Cândido Rodrigues, antigamente conhecida por Rua Direita, num prédio hoje demolido, onde posteriormente foi construída a Via Centrale, era outro local onde nossos vizinhos de Estado compravam os remédios.

O farmacêutico João Marcondes Escobar, intelectual e orador erudito, filho de tradicional família mineira, da qual faziam parte políticos de renome nacional e homens de inteligência privilegiada, era uma pessoa que gozava de enorme conceito em todas as camadas da população bragantina, participando ativamente de atividades cívicas e culturais de nossa terra.

Também pela dificuldade de locomoção para a Capital, os moradores de toda a região que necessitavam de tratamento médico urgente ou de alguma cirurgia, vinham para Bragança Paulista e eram atendidos na Casa de Saúde São Lucas, que tinha como diretores os doutores José de Aguiar Leme e João Baptista Ciuffo, médicos possuidores de enorme capacidade profissional e exímios cirurgiões, os quais salvaram centenas de vidas.

A partir de meados da década de 1950 tudo mudou. Com a abertura da rodovia Fernão Dias, que liga São Paulo a Belo Horizonte, nossa cidade deixou de receber, como antes, a maioria dos nossos irmãos mineiros que mantinham relações comerciais com a nossa cidade, que passaram a dirigir-se diretamente à Capital do Estado, onde ainda hoje, vendem seus produtos e fazem suas compras.

Porém, ficará gravada nos anais de nossa terra essa fase brilhante de sua história, de estreita relação comercial com as cidades do sul de Minas Gerais, o que, atualmente, não mais existe.

JOSÉ CARLOS CHIARION é advogado, escritor e membro da Associação dos Escritores (ASES). Foi vereador; colunista do Bragança-Jornal Diário; participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.

EM TEMPO: Acompanhe toda sexta-feira, no “Altiora Jornal” exibido pela nossa TV Altiora, às 19:00 horas, a “Agenda Cultural”, onde cada semana um assunto dos aqui por nós abordado é comentado pelo jornalista Fabio Silverio, com a colaboração fotográfica de Luis Antonio Palombello.