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BragançaPaulista21 Jan 2018


Colunistas


Recursos Hídricos: mudanças de paradigmas com a crise de 2014-2015
Terça-Feira,  18 ABR 2017
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 Eliseé Reclus, geógrafo do século XIX, em seu livro A Terra escreveu que “a história de um arroio, até a do menor que nasce e se perde no musgo, é a história do infinito”, evocando a partir de uma gota de água o ciclo da natureza no planeta.

Neste ano a Política Nacional de Recursos Hídricos, Lei nº 9433/1997, completa 20 anos. A Política Estadual Paulista de Recursos Hídricos, completa 26 anos, Lei nº 7.663/1991. No último dia 22 de marco comemorou-se o Dia Mundial da Água. A água, mais de um século depois das colocações de Elisée Reclus, menos poetizada pelas leis e normas, mantém-se cada vez mais imprescindível para a organização da sociedade e, portanto, merece todas as datas comemorativas, mas também merece o cuidado constante de ressignificarmos sua forma de gestão, acertos e desafios.



A crise hídrica de 2014-2015 desafiou paradigmas de gestão de recursos hídricos. Levou gestores a repensar a segurança de projetos de recursos hídricos, que antes aceitavam 5% de incerteza em relação aos padrões de vazões das séries históricas hidrológicas.

O ano de 2014 mostrou que a concretização de anomalias hidrológicas, no caso os 5% de incerteza, pode tornar-se um colapso de dimensões catastróficas numa região com alta concentração urbana/industrial. Um outro desafio que a crise hídrica lançou, foi o de pensar em obras de projetos de redundância (back up), o que na prática significa implantar estruturas muito complexas e caras para ampliar a segurança hídrica regional, sem necessariamente utilizá-las.



E um terceiro problema, que surge do anterior, é como criar mecanismos de financiamento onde a justificativa da obra seja aumento de segurança hídrica e não efetivamente o atendimento a uma população específica. Esses desafios foram apontados pela atual secretária adjunta de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado de São Paulo, Mônica Ferreira do Amaral Porto, em Comemoração ao dia Internacional da Água, realizado pela FIESP, em São Paulo, no último dia 21 de março de 2017.

Enquanto a necessidade de redução do risco, e no caso dos recursos hídricos é chamada de aumento da segurança hídrica, passa a ter um preço alto para toda a sociedade, baseado apenas em aumento de obras de engenharia, é preciso pensar em alternativas mais criativas, menos onerosas e uma mudança sistemática da cultura da abundância em relação aos recursos hídricos em todos os setores da sociedade.

Voltamos ao século XIX, pelo olhar de Elisée Reclus, onde até o menor arroio contava a história do infinito, e por analogia hoje, onde qualquer nascente, pequeno rio ou córrego, de cada bairro, de cada cidade, em cada propriedade pode contribuir com o infinito desafio de produzir água para uma população e atividades econômicas cada vez mais concentradas espacialmente. PATRICIA MARTINELLI - COLABORADORA DO COLETIVO SOCIOAMBIENTAL BRAGANÇA