BJD
33 máx 20 min
BragançaPaulista18 Jan 2018


Colunistas


Como se realizavam as cerimônias da Semana Santa antigamente em nossa cidade
Quarta-Feira,  12 ABR 2017
Tamanho dos caracteres

 Antigamente as cerimônias da Semana Santa em nossa cidade diferenciavam muito das que hoje são celebradas. O jejum da Quaresma e a abstinência de carne eram rigorosos e muito respeitados. A maioria dos católicos não comia carne nas quartas e sextas-feiras e muitos jejuavam todas as sextas-feiras.

Existia naquelas pessoas que frequentavam a velha Catedral, onde aconteciam as solenidades religiosas, muita devoção, uma verdadeira confissão de fé.

As comemorações iniciavam-se no Domingo de Ramos, com a benção das palmas defronte a Igreja do Rosário e a caminhada até a Catedral, onde se realizava a missa solene com a presença do digníssimo Bispo Diocesano Dom José Maurício da Rocha e participação do Coral e Orquestra da Catedral, formado por jovens, senhores e senhoras da paróquia, acompanhados por Dona Angelina Diniz Scaglioni ao órgão e músicos de renome na cidade, entre os quais o maestro Ernesto Mascaretti com sua clarineta, Jayme da Silveira Cintra e Fabio Calzavara ao violino, Agricio da Costa Muniz no contrabaixo, Luiz Mendes Ferreira na flauta e outros musicistas de saudosa lembrança.

Na segunda-feira iniciavam-se as cerimônias religiosas, com o Oficio das Trevas, onde eram colocados, ao lado do altar, candelabros com velas acesas, as quais iam sendo apagadas no decorrer das orações. O mesmo se dava durante todas as noites da semana, com grande acompanhamento de fiéis.

Na terça-feira, havia a “Procissão do depósito”, quando era trazida da Igreja do Rosário a imagem de Nossa Senhora das Dores, carregada por congregados marianos, e de outro local, geralmente do Colégio São Luiz, o andor com a imagem do Senhor dos Passos, conduzido pelos Irmãos do Santíssimo.

Na Quarta-feira Santa acontecia a Procissão de Nosso Senhor dos Passos, que também era chamada de Procissão do Encontro, onde os membros da Irmandade do Santíssimo carregavam o pesadíssimo andor com a imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo com a cruz às costas. Defronte à Igreja do Rosário, realizava-se o encontro de Maria Santíssima com seu Filho e seu andor era transportado pelos Congregados Marianos, ocasião em que era pronunciado emocionante sermão, a cargo de um dos padres da paróquia, geralmente o Padre Luiz Gonzaga Peluso, então capelão da Igreja do Rosário.

Era costume nesta e nas outras procissões da Semana Santa, que todos os membros das Irmandades que tomavam parte naquelas cerimônias carregassem lanternas (utensílios guarnecidos de vidro, onde havia uma vela acesa, protegida do vento) fornecidas pela Igreja, dando assim, um maior sentido de fé e devoção aos atos religiosos.

Na Quinta-feira Santa pela manhã era realizada a benção dos Santos Óleos e à noite a tradicional Cerimônia do Lavapés, quando o Bispo Diocesano solenemente banhava os pés de doze pessoas que eram escolhidas antecipadamente e que representavam os doze apóstolos.

A Sexta-feira Santa era um dia respeitado por todos os cristãos. O luto era total. Os trens não apitavam e os poucos carros que existiam na cidade não buzinavam. Os sinos da Catedral ficavam mudos. Os senhores que usavam chapéu naquele dia deixavam-no de lado e saiam de casa com as cabeças descobertas, assim permanecendo o dia todo; os homens não faziam a barba naquele dia e as senhoras usavam vestidos e mantilhas negras, em sinal de luto.

O comércio e a maioria dos bares cerravam suas portas. Havia abstinência de carne nesse dia e o jejum era praticado por muitos cristãos, alimentando-se de pão e água somente. Os sons dos sinos e as campainhas eram substituídos por uma matraca (Instrumento de percussão de madeira que produz estalos secos, usado liturgicamente durante a Semana Santa).

De hora em hora, o finado Rieder, que era ajudante do velho Zordo, sacristão da Catedral, que mais tarde foi substituído no cargo de Sacristão por seu filho Antonio Giacomo José de Zordo, saía com a matraca e dava a volta ao redor da Igreja tocando aquele instrumento para relembrar aos fiéis o sofrimento que Jesus passou e em sinal de respeito pela comemoração da data da morte de Nosso Senhor.

Na parte da tarde, a partir das 15h00, o púlpito da velha Catedral era ocupado por um orador sacro, convidado especialmente para pronunciar o Sermão das Sete Palavras, o qual era ouvido por uma enorme assistência que acompanhava com fervor e emoção a narrativa fundamentada nas últimas palavras ditas por Nosso Senhor Jesus Cristo por ocasião de sua crucificação no Monte Calvário.

À noite, como Bragança naquele tempo não tinha comemorações em outras Igrejas, verdadeira multidão acompanhava a venerável Procissão do enterro ou do Senhor Morto. Nessa procissão só não compareciam os doentes e os mais idosos. A população comparecia em peso e, atrás do Pálio com a imagem do Senhor Morto, a multidão caminhava em profundo silêncio.

Havia paradas nos passos, locais em que eram feitos altares com figuras de Jesus em sua Via Sacra, nos quais Verônica, representada pela Srta. Maria Sultani Farhat (irmã do saudoso Monsenhor Pedro Paulo Farhat) entoava com voz grave e triste o canto “videt omnes” e desenrolava o santo sudário com o rosto de Cristo na presença das piedosas mulheres e de Maria Madalena, que era representada pela senhorita Izabel Cuoco, a qual possuía longos cabelos que cobriam parte de seu corpo e que nessa data eram soltos especialmente para que a mesma participasse daquele ato religioso.

As procissões contavam com a presença de todas as congregações religiosas e o respeito e a ordem predominavam em todos os aspectos. Antes da realização das procissões, a pedido do nosso bispo diocesano, a policia solicitava aos proprietários de veículos que estacionavam no trajeto do préstito que recolhessem os mesmos, deixando livres as ruas para a passagem da procissão. Atrás do último andor e dos sacerdotes que presidiam aquele ato religioso, policiais da Força Pública de São Paulo, tendo à frente o Delegado de Policia e o comandante do Destacamento Policial local para maior ordem, dividiam o espaço segurando o povo que acompanhava a procissão.

O encarregado da organização das filas e da disciplina era o Capitão João Alves Bueno, que era mais conhecido por João Barulho. Era uma figura singular, funcionário municipal, ligado à família Leme, que corria por toda a extensão da procissão dando ordens, pedindo respeito e impondo sua autoridade para que tudo corresse a contento e na mais perfeita ordem.

Após a entrada da procissão na Catedral, o povo se punha em fila para beijar a imagem do Senhor Morto e trocar, na bandeja de esmolas colocada ao lado do esquife, uma moeda que possuía desde a Sexta Feira Santa do ano anterior, por outra moeda que foi ali depositada por outro devoto naquele momento.

Durante a Procissão do Senhor Morto, a Banda XV de Outubro se esmerava na execução de músicas sacras e respeitosos dobrados fúnebres, enquanto o povo com muita devoção acompanhava o préstito.

No Sábado Santo, ou seja, Sábado de Aleluia, pela manhã iniciavam-se as solenidades com a Benção do Fogo Novo, a descoberta das imagens que haviam sido cobertas no início da Quaresma, a Benção da Pia Batismal e, geralmente ao meio-dia, os sinos da Catedral bimbalhavam alegremente anunciando a ALELUIA.

Na madrugada de domingo era realizada a Procissão da Ressurreição, a qual era ansiosamente aguardada por pessoas que passavam a noite na praça, a maioria das quais vindas da roça e que dormiam nos bancos da praça para esperar a saída da referida Procissão.

Entrementes, a Corporação Musical XV de Outubro, em lugar das músicas tristes que havia tocado nas outras procissões realizadas no decorrer da semana, executava alegres dobrados e marchas solenes, reverenciando, dessa forma, a ressurreição do Cristo Salvador.

Às 10h00, com a presença do preclaro bispo diocesano, o Domingo da Páscoa era comemorado com solene missa cantada, com a participação de coro e orquestra, encerrando dessa forma as comemorações da morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Hoje tudo mudou. Não existe um substituto do João Barulho. Não há mais a Banda “XV de Outubro”. A centenária Irmandade do Santíssimo foi extinta. Muitos dos nossos jovens não conheceram as Congregações Marianas e nem as Filhas de Maria, que traziam maior brilho às celebrações religiosas, que marcam a paixão e morte e a gloriosa ressurreição de Jesus.

Não se escuta mais o alegre repicar de sinos da Velha Catedral ao meio dia do sábado santo anunciando a ALELUIA, e nem os sons da matraca durante a Sexta-feira da Paixão, que naqueles tempos era um dia de luto e de tristeza e hoje é considerado um dia comum, pois o comércio funciona, muitos trabalham nesse dia, tratam-se de negócios, outros vão nadar ou pescar, enfim, não existe mais aquela fé sólida e arraigada que possuíam os que nos antecederam e a nós perpassaram pelo exemplo.

Para todos nós que tivemos a felicidade de viver naquela época, em nossa memória ficaram os fatos e as figuras humanas que passaram, mas que sobrevivem na lembrança daqueles tempos que não voltam mais.

JOSÉ CARLOS CHIARION é advogado, escritor e membro da Associação dos Escritores (ASES). Foi vereador; colunista do Bragança-Jornal Diário; participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.

EM TEMPO: Acompanhe toda sexta-feira, no “Altiora Jornal” exibido pela nossa TV Altiora, às 19:00 horas, a “Agenda Cultural”, onde cada semana um assunto dos aqui por nós abordado é comentado pelo jornalista Fabio Silverio, com a colaboração fotográfica de Luis Antonio Palombello.