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BragançaPaulista21 Jan 2018


Colunistas


Lembranças da Igreja e do Coreto da nossa praça
Quarta-Feira,  05 ABR 2017
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 Nas praças centrais das pequenas cidades interioranas, geralmente existem a Igreja Matriz e um Coreto.

Até a década de 1950, nossa cidade não fugia à regra. No Largo da Matriz, que em homenagem a um grande bragantino passou a chamar-se Praça Raul Leme, havia a Igreja, hoje imponente Catedral, e o Coreto, para o uso das Bandas Musicais, e que servia também para palanque dos políticos durante a campanha eleitoral, bem como para uso de oradores em solenidades cívicas.

Existia também, ao lado direito da Igreja, um pequeno chafariz que os habitantes conheciam pelo nome de bebedouro, muito usado pelos sitiantes e pelos moradores das adjacências quando vinham à igreja, para matar a sede com o precioso líquido que dali jorrava e que também fazia a alegria da criançada que gostava de tomar a água que aflorava por meio de uma espécie de bocal de metal dourado.

A Praça Raul Leme naquela época, a exemplo de hoje, possuía árvores à sua volta, à sombra das quais, nas tardes ensolaradas de verão, os mais velhos buscavam, nas habituais conversas, preencher as horas de lazer e, à noite, para resguardar os transeuntes do sereno noturno.

No Coreto situado no meio da praça, as Bandas Musicais XV de Outubro, Santa Terezinha e Santa Basilissa exibiam-se alternadamente em retretas domingueiras.

Muitos cidadãos como nós, devem lembrar-se das Bandas de Música que abrilhantavam os atos cívicos e acompanhavam as procissões e, possivelmente, se recordam do maestro e regente da Banda XV de Outubro, Carlito Fagundes, depois secundado pelos maestros Cassemiro de Morais, Emilio Bianchi e Augusto Ferreira da Silva, assim como também se lembram do maestro Dário Giovanini, que dirigia a Banda Santa Terezinha e do maestro José Aricó, regente da Banda Santa Basilissa.

O Coreto da Praça foi inaugurado dia 29 de abril de 1900, pelo Intendente Benedito Rodrigues Moreira, que naquele tempo era o Presidente da Câmara Municipal e ocupava o cargo de Prefeito. Anos depois o Coreto sofreu sua primeira reforma. No início da década de 1940 foi reconstruído e ampliado para que ficasse mais cômodo.

Nessa época, a Praça Raul Leme, aos domingos à noite, ficava apinhada de famílias, casais e jovens que se deliciavam com lindos dobrados, maxixes, cateretês, valsas, marchas e outros ritmos executados pela corporação musical que se apresentava no Coreto. No centro da praça formavam-se duas alas, uma por senhoritas e outra por rapazes que faziam footing e flertavam.

Na parte inferior do Coreto, no ano de 1937, instalou-se o Serviço de Alto-Falantes PRX-8, e foram colocados possantes alto-falantes no telhado do mesmo, os quais espalhavam os sons dos discos de cantores de sucesso da época, como Orlando Silva, Paraguaçu, Vicente Celestino, Francisco Alves e outros, e a voz do locutor Daniel Deusdedit Peluso (Dedé Peluso), que mais tarde teve como sucessor o jovem Raphael Sando.

Após permanecer alguns anos no Coreto, a PRX -8, necessitando de maior espaço, mudou para um casarão também na mesma praça onde se situava a Associação dos Empregados no Comércio e dali eram transmitidos seus programas.

A partir de 1945, devido a vários fatores, dentre eles o corte da subvenção que a Prefeitura Municipal destinava às Bandas de Música locais, o desinteresse dos componentes da Banda XV de Outubro e a extinção da Banda Santa Terezinha, o Coreto passou a ser ocupado quinzenalmente pela Banda Santa Basilissa, que depois de algum tempo deixou de brindar o público com suas retretas e anos mais tarde extinguiu-se, em virtude do encerramento das atividades da fábrica têxtil da qual os seus músicos eram funcionários.

Na gestão do prefeito Francisco Samuel Lucchesi Filho, iniciada em 1948, houve uma completa remodelação da Praça Raul Leme. O Coreto foi demolido com a justificativa de que não estava sendo usado, as árvores foram derrubadas e o pequeno chafariz, situado ao lado da Catedral, foi destruído.

No lugar do Coreto existe hoje um pergolado para exibição de conjuntos musicais, sendo usado também para outros fins, alguns deles não condizentes com o local. Mas a lembrança do velho Coreto continua em nossa mente e recordamos com saudades dos componentes daquelas Bandas Musicais que deliciavam grande parte da população amante da arte musical.

Quanto à Igreja Matriz, depois da elevação da Diocese de Bragança a Bispado no ano de 1927, passou a ser Catedral. Era uma construção sólida e havia sido reformada quando o vigário da paróquia era o Cônego José Carlos de Aguirre, depois nomeado Bispo de Sorocaba. Foi ali que aprendemos as primeiras lições de Catecismo, orientados pela D. Placidia Rosa, que mais tarde veio a ser nossa professora no Grupo Escolar Dr. Jorge Tibiriçá.

Recordo-me bem dos sinos de nossa Catedral, que possuíam uma sonora voz de bronze e sempre traduziam emoções das mais variadas. Havia repiques de alegria nas manhãs de domingo, nos dias festivos e quando se festejavam as datas comemorativas do Cristianismo. E existiam os toques lentos, chorosos, anunciando a partida de alguém desta vida para melhor.

O tempo foi passando, a pequena cidade foi crescendo e a nossa Catedral ficou velha. Depois de quase cinquenta anos desde a sua última reforma, notaram que a idade havia pesado e sua estrutura perigava e não suportaria nova modificação.

Decidiram então pô-la abaixo. Muitos não se conformaram com a ideia de sua demolição e a construção de outra em seu lugar. Mas prevaleceu o que justificaram como bom senso, e a Igreja, tendo sido condenada, deveria ser demolida.

Era uma manhã triste quando os sinos de nossa amada Catedral repicaram pela última vez anunciando aos fiéis o seu fim. Aí, um fato estranho sucedeu. Enquanto o soar dos sinos anunciava que a partir daquele instante se iniciava a demolição do velho Templo, centenas de andorinhas voavam ao redor da torre, como que se despedindo de nossa Catedral.

E então, com a colaboração da população católica de nossa terra, ergueu-se uma nova Catedral de linhas arquitetônicas modernas no mesmo local em que Antonio Pires Pimentel e sua mulher, D. Ignacia da Silva mandaram construir uma Capela sob a égide de Nossa Senhora da Conceição do Jaguary.

Hoje, a nossa Catedral vem passando por uma reforma, para dar-lhe um aspecto de maior grandeza, acrescentando à Casa de Deus, um ambiente de maior esplendor e religiosidade e para que isso aconteça os fiéis devotos vem dando sua contribuição.

Essa é uma pequena recordação do que era a nossa Praça e seu Coreto, que devem trazer lembranças aos meus contemporâneos e algum conhecimento aos mais jovens que aqui não estavam nessa época que hoje relembramos.

JOSÉ CARLOS CHIARION é advogado, escritor e membro da Associação dos Escritores (ASES). Foi vereador; colunista do Bragança-Jornal Diário; participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.

EM TEMPO: Acompanhe toda sexta-feira, no “Altiora Jornal” exibido pela nossa TV Altiora, às 19:00 horas, a “Agenda Cultural”, onde cada semana um assunto dos aqui por nós abordado é comentado pelo jornalista Fabio Silverio, com a colaboração fotográfica de Luis Antonio Palombello.