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BragançaPaulista22 Jan 2018


Colunistas


Os primórdios do Clube Literário e Recreativo
Quarta-Feira,  22 FEV 2017
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 No dia 27 de maio de 1894, reuniram-se sete cavalheiros pertencentes à sociedade local, onde deliberou-se definitivamente a fundação do “Clube Literário e Recreativo”, que, de fato, foi instalado em princípios de junho do mesmo ano de 1894, sendo considerados sócios fundadores aqueles que primeiro trataram de sua organização.

A instalação do Clube deu-se num prédio situado na Rua do Comércio, ao lado da famosa Casa Pupo, onde atualmente funciona um estacionamento para veículos, à Rua Cel. João Leme n.º 475.

Na ocasião foi eleito o seu primeiro presidente, o Prof. João Batista de Brito e até o ano de 1904 o Clube funcionou naquele local. Porém, como o lugar não comportava mais as suas necessidades, ficou resolvida a sua mudança para um prédio mais espaçoso.

Logo no início de suas atividades, cuidou-se da organização da biblioteca do Clube, que foi enriquecida com a História Universal de Cesare Cantú, composta de 24 volumes e com a Enciclopédia Larousse, duas obras primas da época. Além dessas obras, foram doados pelos sócios dicionários de História e Geografia, Léxico português, História da Revolução Francesa, Histórias da Inglaterra e Portugal, além de romances de Victor Hugo, obras completas de Camões e algumas outras obras de valor.

Encontrando um local mais amplo, os diretores resolveram transferir a sede do Clube Literário e Recreativo para o prédio situado na Rua Direita, hoje Rua Dr. Cândido Rodrigues, junto à sua atual sede.

Veio a fundir-se com o Centro Recreativo e assim mudou-se para o prédio onde até hoje se encontra, que na época era um casarão com uma dezena de portas e janelas, sendo que na parte superior anteriormente existia uma casa de jogos de Joaquim Barbosa e na parte de baixo funcionava a Farmácia São Benedito.

Nessa ocasião, o Clube Literário e Recreativo foi dotado de magnífico estandarte de seda verde, bordado a ouro, em cujo centro se via a figura de José Bonifácio, o glorioso patriarca da Independência, tendo num dos lados uma Lyra, de outro um pouco afastado um globo terrestre, em frente um livro e uma pena e por cima a inscrição “Club Literário e Recreativo”, a data 1.895 e em baixo - “Bragança”.

Desta época, há 122 anos data a sua crescente prosperidade. Depois da fusão, foi seu primeiro presidente o Tenente Felipe Rodrigues de Siqueira, que depois foi substituído pelo Dr. Antônio Cândido Rodrigues, os quais encabeçaram uma enorme lista de mandatários que medeia daquela época até a presente data.

Quando de sua fundação, o primeiro estatuto visava proporcionar a seus sócios toda a sorte de lazer e divertimentos lícitos, entre os quais a realização de saraus dançantes, salão para a prática de jogos, a consulta e leitura de jornais e de livros que compunham sua biblioteca, objetivando desenvolver a instrução dos sócios. Também visava fundar estabelecimentos de ensino de ciências, letras e artes para os sócios e suas famílias.

Com a compra do prédio para a sua sede social, foram efetuados paulatinamente melhoramentos no mesmo e benfeitores do Clube, entre os quais o Cônego Francisco Claro de Assis e o Dr. Pedro de Andrade Freitas, foram homenageados, sendo que este teve seu retrato colocado no salão de honra do Clube.

Desde o início do funcionamento da sede social no prédio onde até hoje se localiza, no salão para jogos, à tardinha e à noite, os sócios se reuniam para um joguinho de bisca, truco, dominó, bilhar e outros jogos; e havia um bar onde os mesmos se reuniam para um bate-papo e um aperitivo, sendo o seu primeiro dono Constâncio Marcassa, que mudou-se para Poços de Caldas e vendeu o estabelecimento para João Baptista, mais conhecido por João Vermelho.

O referido bar teve muitos donos e o que mais tempo permaneceu com ele foi Antônio de Lócio e Silva, que uns chamavam carinhosamente por Toniquinho e outros o conheciam como Toniquinho do Clube e que administrou o Clube por mais de 30 anos, pois, além de zelador e cobrador, era encarregado de resolver as questões que não necessitassem de reunião da diretoria. Dois descendentes de Toniquinho, seu filho Dr. José Lamartine de Lócio e Silva e seu neto Dr. Kleber de Lócio e Silva, ocuparam a presidência do Clube, ao qual ele dedicou grande parte de sua existência.

Lembro-me bem da figura de Absalão Pimenta, que era porteiro do Clube e cujo filho também trabalhava como seu ajudante. Seu Absalão, que faleceu com mais de 85 anos de idade, era um inigualável pescador de lambaris, que os vendia sob encomenda para as famílias conhecidas e também vendia na porta do Grupo Escolar os inimitáveis pastéis feitos por sua esposa, a Nhá Clara.

Quando o seu Absalão pescava em demasia e havia sobra, a nhá Clara fazia os lambaris bem fritinhos e estes eram vendidos no Bar do Clube, junto com seus recheados pastéis e admiráveis empadinhas que seu neto Absalãozinho ia entregar no Clube; tendo eu acompanhado o mesmo muitas vezes, quando ele ia levar os petiscos que faziam a delícia dos frequentadores do Clube Literário.

E assim continuou a trajetória do Literário. Muitas mudanças ali aconteceram. Mas os presidentes que antecederam os primeiros mandatários empregaram todo o esforço no sentido de elevar bem alto o nome do Club Literário e Recreativo, zelando para que o patrimônio legado por seus fundadores não perecesse ou passasse para mãos de estranhos, tendo em mente que este precioso bem imóvel deve ser preservado para entregá-lo aos que vierem depois.

Esta é uma pequena parte da vida do Clube Literário e Recreativo e que a maioria dos que dele fazem parte desconhecem. Por isto tem que ser levado a público, porque faz parte da nossa história.

JOSÉ CARLOS CHIARION é advogado, escritor e membro da Associação dos Escritores (ASES). Foi vereador; colunista do Bragança-Jornal Diário; participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.


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