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BragançaPaulista18 Jan 2018


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‘Corpus Christi’ - Uma tradição bragantina que merece ser lembrada
Quarta-Feira,  03 JUN 2015
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 A Festa de “Corpus Christi”, antigamente era sempre comemorada com grande esplendor em Bragança Paulista.

Na época em que Dom José Mauricio da Rocha era o Bispo de nossa Diocese, era ele quem mais se interessava para que a data fosse comemorada com carinho pelos fiéis católicos.

A procissão de “Corpus Christi” saía pontualmente da Catedral às 15h00, e nela tomavam parte alunos do Colégio Diocesano São Luiz, as garbosas alunas do Colégio Sagrado Coração de Jesus com seus uniformes de gala, os jovens atiradores do Tiro de Guerra 464 e membros das Irmandades Religiosas da paróquia.

O Bispo Diocesano conduzia o ostensório (custódia onde se coloca a hóstia consagrada) debaixo do pálio, que era conduzido por membros da Irmandade do Santíssimo Sacramento, cercados por crianças vestidas de anjos que, com seus mantos coloridos, emolduravam a cena. Atrás, as autoridades locais tomavam parte na procissão, demonstrando seu respeito e carinho para com o “Corpo de Deus”, representado na hóstia consagrada.

Na Praça Jacintho Domingues era erigido um altar, onde era dada a primeira benção com o Santíssimo Sacramento. Defronte a Igreja do Rosário, a cena se repetia, e nas escadarias da Catedral era dada a benção final. Essas cerimônias eram precedidas pela execução da marcha batida, com um toque de pistão, por um atirador do Tiro de Guerra, acompanhado pela fanfarra do Colégio Diocesano São Luiz.

Ao final, dentro da Catedral era celebrado solene “Te Deum”, sendo encerradas as solenidades daquele dia.

Nas janelas das casas das ruas por onde passava a procissão, eram colocadas toalhas coloridas sobre as quais sobressaíam vasos de flores e nas vias públicas eram jogadas pétalas de flores.

A partir de 1949, com a instalação da Paróquia de São José e Santa Terezinha, o seu vigário, Padre Aldo Bolini, conduzia seus fiéis até a praça principal e ali irmanavam-se aos paroquianos da Catedral, iniciando a caminhada levando o “Corpo de Deus” pelas ruas principais da cidade.

Mais tarde, contando com o incentivo do vigário da paróquia da Catedral, moradores das ruas Coronel Osório, Coronel João Leme e Cândido Rodrigues, resolveram enfeitar as mesmas para a passagem do “Santíssimo”, e a partir daí, anualmente, eram estendidos no leito carroçável, magníficos tapetes artificiais, verdadeiras obras de arte, sobre os quais passava a procissão.

Belíssimas figuras feitas com serragem tingida de cores diversas, cascas de ovos e pó de café recolhidos com antecedência na vizinhança, eram aplicadas sobre moldes, serviço esse realizado por rapazes e moças distribuídos em grupos, que iniciavam seus trabalhos, alguns já na noite anterior e outros a partir das 5 horas da manhã daquele dia santificado.

Aos que iniciavam os trabalhos à noite e avançavam madrugada adentro até o raiar do dia, para suportar a friagem do amanhecer, eram servidos pelas famílias e por moradores nas vizinhanças xícaras de café ou chocolate e também alguma bebida para que fosse espantado o sono.

Na Rua Coronel Osório e adjacências, o Paulo (dono do antigo Bar das Pedras), era um dos organizadores do grupo de voluntários, sendo que, na pensão do saudoso Abrahão J. Romenos, situada na esquina da Rua Coronel Osório com a Rua Dr. Tosta, havia café ou alguma bebida mais forte para os que desejassem e o frio da madrugada não fosse sentido tão profundamente.

Os grupos se esmeravam no trabalho a fim de que os “tapetes” de sua rua fossem considerados os mais bonitos e chamassem mais a atenção dos transeuntes, sem com isso incitar competição.

A partir da década de 1980, mudanças foram efetuadas e tudo ficou diferente. A festa de “Corpus Cristi” foi realizada alguns anos no Estádio Marcelo Stefani, e nos últimos anos a procissão tem início no “Colégio Sagrado Coração de Jesus”, de onde é feita uma caminhada até a nossa Catedral.

Porém permanece na lembrança daqueles que participaram no passado daquelas solenidades com seu trabalho, a satisfação que sentiam quando o povo contrito que acompanhava a procissão em que o Bispo Diocesano levava “Vivo e Verdadeiro” no ostensório o Cristo, passava sobre aqueles lindos tapetes feitos com tanto carinho e devoção.

Como não foram mais confeccionados os tapetes, os jovens daquela época, muitos deles atualmente chefes de família, não tiveram oportunidade de passar aos seus descendentes as técnicas deste trabalho, que levou tantos a fortalecerem sua fé cristã e que por isso se sentiram parte do “Corpo de Cristo” e da Igreja.

José Carlos Chiarion é advogado, escritor e membro da Associação dos Escritores (ASES). Foi vereador; colunista do Bragança-Jornal Diário; participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.