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BragançaPaulista16 Jan 2018


Colunistas


Inocêncio de Oliveira – o “Nenê” – folclórico vereador bragantino
Quarta-Feira,  20 MAI 2015
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 Todas as cidades possuíram tipos folclóricos, dotados de certa originalidade criativa e que traziam consigo doses de humorismo em suas atitudes estranhas, que, embora censuráveis, eram humanas.

Embora fossem eles marginalizados, eram figuras marcantes de uma época que se vai ao longe.

Bragança Paulista não escapou à regra. Durante a minha infância e no meu tempo de juventude, cheguei a conhecer um certo número de pessoas que faziam parte do rol dos tipos populares e muitos deles já relembramos neste espaço.

Nos idos do ano de 1962, quando eu exercia a vereança, conheci ocasionalmente mais um desses tipos populares. Chamava-se Inocêncio de Oliveira, porém era mais conhecido por “Nenê”.

Nascido num dos bairros de nosso município, trabalhava como servente de pedreiro e passou a participar do cotidiano local.

“Nenê” era forte, de estatura alta, um tanto obeso, bochechudo. Usava óculos de aros redondos, chapéu de abas caídas, camisa riscadinha. Dificilmente trajava paletó e quando não estava de sapatão gostava de andar descalço ou de chinelos.

Como professava uma seita evangélica, trazia sempre consigo uma Bíblia, da qual tinha por hábito fazer citações. Gostava também de recitar poesias sertanejas quando visitava o “Senadinho”, uma barbearia situada na Praça Raul Leme, onde hoje se localiza a “Loja Galerie”, bem como em programas de auditório que aconteciam naquela época na Radio Bragança.

Em 15 de dezembro de 1962, na festa de aniversário da cidade, realizada em praça pública, atendendo a insistentes pedidos de estudantes secundários que ali se faziam presentes, “Nenê” declamou algumas poesias sertanejas, tendo sido delirantemente aplaudido pelos mesmos, que haviam combinado entre eles que assim o fariam a título de brincadeira (gozação).

Terminada a festa, os estudantes previamente ajustados, resolveram convidar o “Nenê” para disputar as eleições municipais que seriam realizadas no ano de 1963, como candidato a vereador.

“Nenê” levou a sério o convite e passou a assistir com frequência as sessões da Câmara Municipal, sempre ao lado de alguns estudantes que lhe faziam companhia. Nesta ocasião, como vereador é que pude conhecer melhor essa pessoa.

Ao mesmo tempo “Nenê” passou a procurar uma legenda pela qual pudesse se candidatar. Encontrou guarida no PTB, que tinha como candidato a prefeito José Domingos Brandi, e como vice-prefeito René La Salvia. Tendo ingressado naquela agremiação partidária, como candidato a vereador recebeu o nº. 4.610, que coincidentemente, na numeração do “jogo de bicho” representava o burro.

E assim, com o apoio dos estudantes e por insistência de alguns frequentadores do “Senadinho” que por simples brincadeira resolveram apoiá-lo, Nenê iniciou sua campanha eleitoral e foi cognominado pelos estudantes como “O Poeta do Sertão”.

Seu primeiro comício foi marcado pelos estudantes para ser realizado na Praça Raul Leme. No dia aprazado apareceu o “Nenê” descalço e sem paletó e queria subir num banco do jardim para falar ao povo. Entretanto, depois que subiu no banco, os estudantes o carregaram triunfalmente e o levaram para a carroceria de um caminhão estacionado na Praça, onde ele se desculpou por não ser orador e pediu para declamar umas poesias sertanejas.

Os estudantes, fazendo grande algazarra, colocaram na carroceria do veículo, ao lado do “Nenê”, uma outra figura folclórica de nossa cidade, o “Zé Boné”, que os jovens ali presentes elegeram cabo eleitoral nº 1 do candidato e que deveria acompanhá-lo daí para frente em todos os comícios.

E assim continuou a campanha eleitoral e os comícios em que “Nenê” participou eram assistidos por grande multidão, entre os quais políticos de outros partidos e algumas autoridades que se divertiam com as “tiradas” do candidato e que eram delirantemente aclamadas pelos irreverentes estudantes.

No último dia da campanha de “Nenê”, os estudantes conseguiram reunir um enorme número de colegas que lotou o lado da Praça Raul Leme onde ia se realizar o comício. Faixas de todos os lados, rojões e bombinhas; es que surge o “Poeta do Sertão” com a Bíblia na mão e um guarda-chuva no braço, embora fosse uma noite enluarada.

O comício realizou-se debaixo de muita gritaria por parte dos estudantes, que começaram a fazer suas reivindicações, a maior parte delas absurdas, feitas para zombar com o candidato que as levava a sério e prometia se eleito fosse, torná-las realidade.

Como a gritaria era intensa por parte dos jovens estudantes, em dado momento o “Nenê” berrou para os assistentes: “Fiquem quieto! Quando um burro fala o otro baixa a oreia (sic)”.

Realizada a eleição, Inocêncio de Oliveira, com os votos maciços dos estudantes gozadores, foi o segundo vereador mais votado.

Quando assumiu a vereança, “Nenê” continuou no Partido pelo qual foi eleito e em muitas vezes nas votações da Câmara foi o fiel da balança, uma vez que a Edilidade local compunha-se de 19 vereadores, sendo 9 vereadores da situação, 9 vereadores da oposição e o “Nenê” era neutro, não pendia para nenhum dos lados.

Numa das eleições da Mesa Diretora da Câmara Municipal, o “Nenê” teve valorizado o seu voto, pois foi procurado por um grupo de vereadores para apoiar uma das chapas e para isso ele exigiu que lhe fosse dado o cargo de Vice-Presidente da Câmara, o que aconteceu.

Assim, o “Nenê”, na ausência do Presidente da Câmara na Sessão, assumia o cargo e a comandava. Como na época o cargo de vereador não era remunerado, o prefeito Dr. Lourenço Quilicci deu ao “Nenê” um serviço de servente de pedreiro no Cemitério local, cargo que ocupou até terminar o seu mandato de vereador.

Depois disso não soubemos mais do paradeiro do “Nenê”, o “Poeta do Sertão”, que abandonou a política. Mais tarde soubemos que ele havia falecido no mais completo anonimato.

Através desse relato, procuramos registrar um fato acontecido 53 anos atrás, o qual teve como principal protagonista um dos tipos folclóricos de nossa terra.

E por isso, Inocêncio de Oliveira (inocente até no nome), é mais um personagem que faz parte da nossa história.

José Carlos Chiarion é advogado, escritor e membro da Associação dos Escritores (ASES). Foi vereador; colunista do Bragança-Jornal Diário; participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.