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BragançaPaulista18 Jan 2018


Colunistas


Há 70 anos, Bragança vibrou com o término da 2ª Guerra Mundial
Quarta-Feira,  13 MAI 2015
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 Girando a roda do tempo, voltamos nossa mente para um passado distante, ou seja, há precisamente 70 anos, quando os habitantes de Bragança, que pouco antes viera a mudar seu nome para Bragança Paulista, em virtude de já existir uma cidade fundada antes da nossa e com o mesmo nome, situada no Estado do Pará, comemoraram o término da 2ª Guerra Mundial, deflagrada em setembro de 1939.

Para os mais jovens entenderem a importância desse capítulo da história mundial e seus reflexos em nosso chão natal, algumas considerações são necessárias, e com prazer o fazemos com o fito de demonstrar o interesse nas questões pátrias e o alto grau de patriotismo de nossa gente naqueles idos tempos.

O Brasil tomou parte na luta ao lado dos Estados Unidos da América, Inglaterra e Rússia, contra a Alemanha, Itália e Japão e alguns países orientais. Enviou à Itália uma força expedicionária da qual faziam parte quase 60 bragantinos para lutar junto às forças aliadas. Entre os bragantinos que lutaram na península italiana estava meu tio Dante Francisco Chiarioni, que teve a ventura de colaborar com sua parcela para a vitória aliada e voltar são e salvo à sua terra natal.

Voltamos agora às primeiras horas da manhã de 7 de maio de 1945. A população bragantina, surpreendida com a notícia da capitulação incondicional da Alemanha e seus aliados, fremiu de entusiasmo.

Pelos quatro cantos da nossa cidade foguetes, bombas de estouro e rojões estrugiam sem cessar, avisando a todos os nossos contemporâneos a derrota dos germânicos e seus aliados. Os sinos da Catedral repicavam alegremente saudando o término dessa carnificina que há anos infelicitou a humanidade.

O comércio bragantino, as repartições públicas e os estabelecimentos bancários e de ensino cessaram as atividades às 13h00 e nesses locais e em muitas residências foram hasteadas a bandeira nacional.

Um boletim foi distribuído convidando os bragantinos para que, às 19h00 daquele dia se reunissem e participassem das comemorações do término da Guerra, que se realizaria defronte o Paço Municipal, situado na Praça José Bonifácio e que foi demolido uma década depois, por intransigência do Prefeito Municipal daquela época, que não dava valor ao patrimônio histórico de nossa terra.

Ás 15h30 os operários da “Cia. Têxtil Santa Basilissa”, com a colaboração do Tiro de Guerra 464 e das alunas do Colégio Sagrado Coração de Jesus, tendo a Corporação Musical Santa Basilissa à frente, demandaram à praça para demonstrando júbilo pelo término da refrega mundial que ceifou milhões de vidas.

Chegando à frente da Catedral, deu-se a solenidade comovente do hasteamento da bandeira nacional na fachada do templo pelo Tenente Marciolino Costa dos Santos, representante do Exército Nacional nesta cidade, que se encontrava ladeado pelo Prefeito, José de Assis Gonçalves Junior. Nessa ocasião, o Aero Clube de Bragança, por um de seus aviões pilotado pelo instrutor Ernesto Biancardi, jogou flores sobre a bandeira que se erguia ufana às alturas da torre de nossa principal Igreja.

Dali o Prefeito, acompanhado por todos os que tomavam parte na passeata e por enorme multidão, seguiu para o Paço Municipal, de onde falaram o secretário municipal Oswaldo Russomano e o Tenente Marciolino dos Santos. Da sacada do prédio, também discursou o representante do “Bragança Jornal”, seu redator Prof. Levindo Ferreira Cintra. Dispersada a manifestação cívica, a cidade não se manteve silenciosa. Bombas e foguetes continuavam a estrondar pelos quatro cantos da cidade e aparelhos de rádio transmitiam os pormenores sobre o término da guerra.

A população bragantina viria a vibrar logo à noite. E antes da hora determinada para o início das comemorações, chegaram as representações do Tiro de Guerra 464, Aero Clube de Bragança, Escola Técnica de Comercio Rio Branco, Ginásio Diocesano São Luiz, Escola Normal e Ginásio Sagrado Coração de Jesus, Loja Maçônica Amor da Pátria, Clube Literário e Recreativo, Clube de Regatas Bandeirante, Bragança Futebol Clube, Clube Recreativo 13 de Maio, Grêmio Recreativo Santa Basilissa, Associação Comercial e Corporação Musical Santa Basilissa, instituições essas que se apresentaram com seus estandartes e bandeira nacional.

Dando início às solenidades oficialmente, usou da palavra novamente o secretário municipal Oswaldo Russomano, em nome da Municipalidade. A seguir falaram o Tenente Marciolino Costa dos Santos, Adolfo Pen, Dr. Lineu Marques de Assis e por fim Vitório Guerra, alfaiate italiano estabelecido nesta cidade e que era um inflamado antifascista.

Organizado o préstito cívico, na mesma ordem em que se colocaram na Praça e que contava com mais de duas mil pessoas, a multidão se dirigiu ao Palácio Episcopal, onde Dom José Mauricio da Rocha, preclaro bispo diocesano pronunciou patriótico discurso.

Da residência episcopal os manifestantes seguiram até a Delegacia de Polícia, onde falou o Dr. Geraldo Assis Gonçalves em nome do Clube Literário. A seguir, o cortejo passou pela redação do jornal Cidade de Bragança, naquela época localizado na Rua do Comércio, ao lado da loja de D. Mariazinha “Turca”, na esquina com a Rua Professor Luiz Nardy, e ali usaram da palavra o Dr. João Marcilio, presidente do PTB local e Daniel Deusdedit Peluso, brilhante jornalista bragantino e escritor, que usava o pseudônimo Tristão dos Vales. Continuando, os componentes da caminhada cívica pararam defronte à sede do Tiro de Guerra 464, situado na mesma rua, ao lado de onde existe hoje a Farmácia Central.

Naquele local discursaram Paulo Ribeiro de Vasconcelos, graduado funcionário municipal e o bancário Vitorino Alves. Seguindo para a Rua Dr. Cândido Rodrigues, fizeram uma pausa em frente ao Centro de Saúde, que funcionava num prédio existente naquele tempo ao lado da atual agência do Banco Bradesco, para ouvir as palavras do médico sanitarista Dr. Afonso Augusto Santangelo e farmacêutico João Marcondes Escobar.

Em seguida, a passeata estacionou defronte o prédio da Associação Comercial e de uma das suas janelas falaram o Dr. Livio César, orador daquela entidade e o operário Américo Bartolomei; em seguida pararam na frente do Clube Literário e Recreativo, onde, de uma de suas sacadas, usou da palavra o diretor Dr. Abel Benedito Batista de Oliveira.

Por último, o préstito parou defronte ao prédio do Sindicato dos Empregados no Comércio, na Praça da Catedral, local em que hoje existe a agência do Banco Santander, tendo pronunciado belíssimo discurso o Prof. José Nantala Badue, em nome da Escola Técnica de Comércio Rio Branco.

Fechando com chave de ouro aquela brilhante manifestação popular, voltou a usar da palavra o Prof. Levindo Ferreira Cintra, encerrando-se dessa maneira as solenidades com que a nossa gente comemorou o término da 2ª Grande Guerra Mundial. A ordem pública não sofreu a menor perturbação, graças ao espírito ordeiro de nossa população e aos cuidados da polícia loca,l sob a direção do delegado Dr. Henrique D’Avila Gonçalves.

Novas festividades aconteceram em 10 de agosto de 1945 e nos dias subsequentes, quando chegaram de volta à terra natal os jovens expedicionários que tomaram parte na refrega, a maioria dos quais hoje ausentes de nosso convívio.

Nossos conterrâneos devem reverenciar a memória não só daqueles que saíram de Bragança para defender a nossa pátria, bem como dos que tomaram parte nas festividades que marcaram o final da guerra contra a Alemanha, Itália e Japão, somado a todos aqueles que tomaram parte nas festividades do regresso dos expedicionários bragantinos, demonstrando o civismo e o sentimento de brasilidade de que nossos contemporâneos eram possuidores; os quais, por isso, fazem parte da nossa história.

José Carlos Chiarion é advogado, escritor e membro da Associação dos Escritores (ASES). Foi vereador; colunista do Bragança-Jornal Diário; participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.