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BragançaPaulista22 Jan 2018


Colunistas


Relembrando alguns comerciantes do meu tempo de criança
Quarta-Feira,  06 MAI 2015
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 No tempo de minha infância, Bragança Paulista, como toda cidade do interior, prezava ser uma cidade tranquila, onde todos se conheciam. O seu comércio era muito ativo, uma vez que havia um intenso intercâmbio comercial com as localidades situadas no Sul de Minas.

Naquela época, não existiam como hoje, os supermercados; havia muitos estabelecimentos comerciais de grande, médio e pequeno porte. Os armazéns de médio e pequeno porte eram mais conhecidos por “vendas” ou “empórios”, e havia também “quitandas”, onde se vendiam frutas, legumes, ovos, cereais, doces caseiros, tendo algumas delas a venda de frangos vivos que vinham da zona rural.

Havia armazéns de secos e molhados, especializados em latarias, doces finos, azeite e vinhos, além de bolachas de todos os tipos e demais mercadorias nacionais e importadas. Existiam também os pequenos estabelecimentos comerciais onde se vendiam artigos variados e bebidas a granel, em cujos locais os fregueses gostavam de tomar os seus aperitivos antes das refeições ou após a saída do trabalho.

Na Rua do Mercado, esquina com a Travessa Boa Vista, hoje Rua Dr. Tosta, situava-se a venda do Camilo Novello, na qual trabalhavam seu proprietário, sua esposa e seu filho Afonso. O estabelecimento tinha bastante movimento e toda a vizinhança ia comprar na venda do Camilo.

Em um dos cantos do modesto balcão ficavam as bebidas, e além das cervejas e refrigerantes, eram vendidos vermute, conhaque e aguardente em doses. Ao lado, uma pequena pia, destinada a lavar os copos em que eram servidas as bebidas. Com a morte do patriarca, ficaram no armazém a sua esposa e o filho Afonso, que mais tarde veio a aposentar-se e encerrar as atividades comerciais.

Mais adiante, na esquina da Rua do Mercado com a Travessa Bragantina, hoje, Rua Expedicionário Basilio Zecchin Jr., havia a “venda” de propriedade do Augusto Ferrini, que era muita frequentada pelos boiadeiros e pelos sitiantes que deixavam seus animais na cocheira existente ali perto, de propriedade do Mário Funck, onde também se ferravam cavalos.

Esse estabelecimento comercial mais tarde passou para José Gazzanêo, que era proprietário do imóvel. Ali trabalhava seu filho Silvio Gazzanêo e essa firma também mais tarde cerrou suas portas, indo o Silvio dedicar-se a outros ramos de negócio.

Na mesma rua, na esquina da Rua do Mercado com a Rua Prof. Luiz Nardy, localizava-se o armazém do Hipólito Augusto Pacitti, que residia nos fundos do estabelecimento com sua família. Quem dos meus contemporâneos não se recorda da figura carismática do velho Pacitti, de sua esposa dona Ana e de seus filhos José, Saturnino e América Pacitti?

O José Pacitti era contador e trabalhava nesse mister; o Saturnino Pacitti, conhecido alfaiate, era dado à política e foi um operoso Vereador à nossa Câmara Municipal. Quanto à dona América, que foi casada com Raphael Colicigno, era professora de Corte e Costura e possuía uma Escola onde muitas senhoras e senhoritas da cidade aprenderam a arte da costura. Possuidora de avançada inteligência, dona América era escritora e poetisa e, em virtude de seus predicados e por sua descendência ancestral, foi agraciada com o título de Baronesa, tendo prestado grandes serviços à nossa população, pois, por seu intermédio o S.E.S.I. instalou-se nesta cidade, criando escolas de capacitação profissional e de ensino fundamental.


Voltando a falar sobre a venda do Pacitti, (como era conhecida), tenho ainda na lembrança que, logo de manhãzinha vinham o leiteiro, o padeiro e depois, numa enorme cesta, coberta com uma toalha branca, chegavam os pastéis feitos pela dona Antonia Zamper, os quais eram postos num recipiente grande de louça e colocado num armário perto do balcão. Os meninos que residiam ali por perto, inclusive eu, gostavam de ir comprar pastéis e tomar um copo de refresco de groselha. Para o lanche escolar, a criançada ia comprar mortadela, que era cortada com uma faca muito afiada, com todo o cuidado, pelo velho Pacitti.

Quem descia pela Travessa Ypiranga, atual rua Dr. Antonio da Cruz, na esquina com a Rua do Mercado, deparava com o armazém do Marcilio de Oliveira. Ali trabalhava o sr. Marcilio, que tinha a ajuda de seus filhos, entre os quais a srta. Jacyra e o Clóvis de Oliveira. Este depois passou a trabalhar como cronista esportivo e mandar suas crônicas para o jornal “Cidade de Bragança”.

Mais tarde naquele local, estabeleceu-se o genro do “seu” Marcilio, o João Miguel Fernandes que havia casado com sua filha Jacyra, sendo que mais tarde, o João veio a fixar-se em outro local, na mesma rua, com um Supermercado. Com o decorrer do tempo o João Miguel Fernandes cursou a Universidade e tornou-se advogado.

Defronte o armazém do Marcilio de Oliveira, o industrial Francisco Lauletta possuía um deposito de fumos em corda, ao lado do qual montou o “Frigorífico” Cristal”, e um açougue anexo, especializado em carnes suínas, as quais ficavam armazenadas em grandes geladeiras para depois serem vendidas. A banha suína ali produzida era famosa em todo o Estado, sendo vendidas em galões ou latas de 18 litros.

A linguiça fabricada naquele local era da melhor qualidade e havia um grande número de viajantes encarregados da venda de todos os produtos manufaturados no referido estabelecimento industrial. O corpo de viajantes ligados à firma era supervisionado pelo Francisco Lauletta e por seu cunhado, que dedicavam a maior atenção para que os produtos dali oriundos, ou seja, o fumo em corda, a banha, a linguiça e as carnes, fossem considerados os melhores do Estado, e de fato, o eram.

Existiram outros estabelecimentos comerciais nesse quarteirão de rua dos quais não me esqueço, entre eles a “venda” do Joaquim Moraes, o “Quinzinho”, que depois se tornou fiscal municipal, e que ficava em frente ao armazém do Pacitti, entre a Rua do Mercado e a atual Rua Professor Luiz Nardy, onde mais tarde foi construído o prédio do consultório dentário do José Lang Sobrinho.

Mas sobre estes outros falaremos oportunamente, uma vez que tudo isso faz parte das lembranças da minha infância e consequentemente da nossa história.

José Carlos Chiarion é advogado, escritor e membro da Associação dos Escritores (ASES). Foi vereador; colunista do Bragança-Jornal Diário; participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.