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BragançaPaulista21 Jan 2018


Colunistas


Devaneios numa noite de outono
Terça-Feira,  21 ABR 2015
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 Numa destas noites de outono, dias depois das comemorações da Semana Santa, embora o frio estivesse às portas, era lua cheia, o que nos convidada a sair para dar umas voltas e aproveitar o luar que iluminava a escuridão noturna. Ao sair de casa, situada na rua do Comércio, em direção ao bairro das Pedras, vieram-me de imediato à mente coisas e fatos do passado.

Recordei-me, como em um devaneio, do tempo em que a cidade era calma, com pouquíssimos carros nas ruas. Lá pela década de 1950, saíamos de casa sem medo, embora as ruas à noite fossem mal iluminadas e apenas dois ou três soldados, ou seja, o Joãozinho Fonseca, o Ageu dos Santos e o Cabo Godoy, faziam a ronda nas praças e ruas da cidade.

Enquanto caminhava, em meus pensamentos refiz antigos caminhos... Logo de saída senti um cheiro forte de café torrado e olhei para dentro da torrefação do “Café Bragantino”, onde encontravam-se os irmãos Celeste e Dino Paulinetti no balcão, debaixo de uma luz bruxuleante, pesando os saquinhos de café em pó que seriam servidos à freguesia e entregues nos armazéns, acomodando-os em uma grande caixa de papelão que colocavam na charrete que pertencia à firma para serem entregues no dia seguinte à freguesia.

Ao atravessar a esquina da Travessa Boa Vista (atual rua Dr.Tosta) com a Rua do Comércio, lembrei me do antigo morador da casa que ficava na confluência das duas ruas, o Nicolau Moreno, que possuía uma loja de calçados situada entre as ruas do Comércio e Professor Luiz Nardy.

Mais adiante relembramos a pessoa do cirurgião dentista Geraldo de Assis Gonçalves, que saía de sua casa todas as noites àquela hora e dirigia-se ao Club Literário e Recreativo, do qual era um assíduo frequentador, tendo ocupado por várias vezes cargos de diretoria.

Em seguida, passando defronte ao local onde se situava a subestação da Empresa Elétrica Bragantina, me lembrei dos possantes transformadores de força que faziam um ruído que se ouvia em todo o quarteirão. Na porta da enorme garagem onde eram guardados os caminhões da referida Empresa, sempre víamos conversando o Otavio Rinaldi (encarregado geral) e os empregados José, Joaquim e Luiz Pinto, que eram irmãos e prestavam excelentes serviços à concessionária de luz e força da cidade.

Mais acima, numa casa com 3 janelas que hoje é ocupada por um Escritório de Contabilidade, relembrei José Paulino Leme, que trabalhava na Coletoria Estadual, pertencia à diretoria do Asilo, à Irmandade do Santíssimo Sacramento e outras instituições religiosas da cidade e ali morava com sua família.

Quase ao lado residia Rafael Diniz, chefe de uma numerosa família, contando-se entre seus filhos dois ilustres e saudosos bragantinos, Alberto Diniz, um dinâmico comerciante de nossa praça, pertencente ao escol de nossa sociedade e que mais tarde galgaria vários postos de relevo em nossa cidade, entre os quais o honroso cargo de Prefeito Municipal; e seu irmão João Ferreira Diniz, que era proprietário de uma farmácia na Rua do Mercado, a “Farmácia São João”.

Além de ser um ótimo farmacêutico, João possuía um boníssimo coração e por isso era muito estimado em todas as camadas da população bragantina. Ainda moço ele deixaria este mundo, vítima de uma cruel doença que o levou à morte em poucos dias.

Continuei caminhando tranquilamente e viajando no tempo com meus pensamentos quando, à janela de sua casa, situada um pouco acima, rememoramos figura de Apolinário Duarte, mais conhecido por “Poá”, pai do então jovem Vair Duarte. Esse nosso velho conhecido havia possuído muitos anos atrás, um barzinho no “Teatro Bragantino”, onde muitas vezes compramos a sua deliciosa empadinha, que saboreávamos acompanhada de uma xícara de um perfumado café.

Na residência ao lado morava um casal, Miguel Tucci e D. Dagmar. Ele era um artista marceneiro, que juntamente com seu irmão Caetano Tucci possuía uma Oficina de Marcenaria no início da Rua Conselheiro Rodrigues Alves, antiga Rua das Pedras, e sua esposa era professora no Grupo Escolar “Dr. Jorge Tibiriçá”, desta cidade.

A caminhada continuava, quando em minha memória ouvi os sons harmoniosos de um piano que vinham da sala de uma casa com 3 janelas que estavam entreabertas e por uma delas se enxergava uma senhora de cabelos brancos como a neve dedilhando suavemente o teclado de seu instrumento musical, executando a Sonata de Chopin. Era a renomada professora de piano D. Angelina Diniz Scaglione, junto de suas duas jovens filhas, que escutavam atentamente a música executada por sua mãe.

Na casa ao lado, relembrei um senhor magro, com uns 45 anos de idade se tanto, o Antonio de Lócio e Silva, mais conhecido por “Toniquinho” do Clube”, que era o administrador, o zelador e cobrador das mensalidades do Club Literário e Recreativo e lá possuía um Bar, que era frequentado pelos “habitués” do referido Clube.

No prédio vizinho executavam um lindo Hino que era cantado pelos fieis da Igreja Presbiteriana e de longe deparei com a figura do Prof. Jovelino Affini, excelente professor, funcionário do Banco Comercial S/A e substituto do pastor da referida Igreja.

Notei ainda a presença de D. Noemia Organo, de Natal Montessanti, um antigo engenheiro agrônomo desta cidade, D. Ifigenia Pimenta, filha do “seu” Absalão Pimenta, um misto de pescador e vendedor de salgadinhos na cidade, além da D. Leony Tognoli e do José de Paula Lima, um destacado representante comercial local.

Ao lado do Templo, na janela de sua casa, um senhor de certa idade conversava com um jovem. Era o Professor Quincas, que durante muitos anos lecionou no Grupo Escolar “Dr. Jorge Tibiriçá”, onde era muito estimado, graças aos dotes que possuía. Era enérgico e possuía muita sabedoria.

Do prédio da esquina com a rua da Liberdade, onde muito mais tarde vieram a residir José Magrini e familiares, saíam dois senhores. Eram eles os irmãos Álfio e Fausto Russomano, ambos funcionários da Delegacia de Policia local, que examinavam o prédio para ser instalada a Delegacia de Policia e a secção de Trânsito do Município, em cujo local essa repartições ficou estabelecida muitos anos.

Já adentrava à Praça Jacintho Domingues quando resolvi dar uma olhada no monumento em homenagem aos Voluntários de 1932, que ficava no centro da referida Praça e que muitos anos depois foi transferido para a Praça 9 de Julho. O monumento estava enfeitado com flores, que devem ter sido colocadas por familiares de algum dos heróis que ali estavam sendo homenageados.

Lembrei-me que naquele local tivemos as nossas guerrinhas com a turma do Largo das Pedras. Era ali que jogávamos as nossas peladas com bolas de meia, contra a turma da Biquinha e foi ali que muitas vezes saímos correndo para não sermos admoestados pelos fiscais da Prefeitura e principalmente pelo soldado Altamiro da Cunha, que morava ali perto. Olhei o relógio e a noite já ia adiantada.

Foi então que saí dos meus devaneios e voltei à realidade. A Praça estava deserta, não vi nenhum cão vadio como naqueles áureos tempos e nem o carroção da Prefeitura que recolhia lixo, puxado por 4 burros, guiados pelo Honório, que retirava o lixo à noite naquele trecho da cidade.

Então voltei lentamente para casa e tudo aquilo que recordei em minha caminhada desapareceu como num sonho. De real, só o luar continuava a iluminar a escuridão.

Ficou em mim apenas a recordação da minha Bragança daqueles tempos e de todos aqueles que citei, com os quais convivemos e que por isso fazem parte da nossa história.

José Carlos Chiarion é advogado, escritor e membro da Associação dos Escritores (ASES). Foi vereador; colunista do Bragança-Jornal Diário; participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.