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BragançaPaulista18 Jan 2018


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A Semana Santa dos tempos da nossa meninice
Quarta-Feira,  01 ABR 2015
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 As comemorações da Semana Santa em nossa cidade, antigamente, eram muito diferentes das atuais.

Havia mais respeito e maior religiosidade. Existia naquelas pessoas que frequentavam a velha Catedral, onde aconteciam as solenidades religiosas, muita devoção, uma verdadeira confissão de fé.

As comemorações iniciavam-se no Domingo de Ramos, com a benção das palmas defronte a Igreja do Rosário e a caminhada até a Catedral, onde seria realizada a missa solene com a presença do digníssimo Bispo Diocesano, Dom José Maurício da Rocha, e participação do ‘Scholum Cantorum’ da Catedral, coro formado por jovens, senhores e senhoras da paróquia, acompanhados por Dona Angelina Scaglioni ao órgão e músicos de renome na cidade, entre os quais, o maestro Ernesto Mascaretti com sua clarineta, Jayme da Silveira Cintra ao violino, Agricio da Costa Muniz no contrabaixo, Luiz Mendes Ferreira na flauta e outros musicistas de saudosa lembrança.

Na Segunda-feira Santa, iniciavam-se as cerimônias religiosas, com o Oficio das Trevas, onde eram colocados ao lado do altar candelabros com velas acesas, as quais iam sendo apagadas no decorrer das orações. O mesmo se dava durante todas as noites da semana, com grande acompanhamento de fiéis contritos e respeitosos.

Na Terça-feira, havia a Procissão do “depósito”, quando era trazida da Igreja do Rosário a imagem de Nossa Senhora das Dores, carregada por congregados marianos e de outro local, geralmente do Colégio São Luiz, a imagem do Senhor dos Passos, conduzida pelos Irmãos do Santíssimo.

Na Quarta-feira Santa acontecia a Procissão de Nosso Senhor dos Passos, que também era chamada de Procissão do Encontro, onde os membros da Irmandade do Santíssimo carregavam o pesado andor com a imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo com a cruz às costas. Defronte a Igreja do Rosário, realizava-se o encontro de Maria Santíssima com seu Filho, ocasião em que era pronunciando emocionante sermão, a cargo de um dos padres da paróquia, geralmente o Padre Luiz Gonzaga Peluso, que muitos anos mais tarde foi elevado ao Bispado.

Era costume nesta e nas outras procissões da Semana Santa, que todos os membros das Irmandades que tomavam parte naquelas cerimônias, carregassem lanternas (utensílios guarnecidos de vidro, onde havia uma vela acesa, protegida do vento) fornecidas pela Igreja, dando assim, um maior sentido de fé e devoção aos atos religiosos.

Na Quinta-feira Santa era realizada a tradicional cerimônia do Lavapés, quando o senhor Bispo Diocesano, solenemente, banhava os pés de doze pessoas, que eram escolhidas antecipadamente e que representavam os doze apóstolos.

A Sexta-feira Santa era um dia respeitado por todos os cristãos. Os sinos da Catedral ficavam mudos, os senhores que usavam chapéu naquele dia deixavam-no de lado e saiam de casa com as cabeças descobertas, assim permanecendo o dia todo; os homens não faziam a barba naquele dia e as senhoras usavam vestidos e mantilhas negras, em sinal de luto. Havia abstinência de carne nesse dia e muitos jejuavam, alimentando-se durante aquele dia de pão e água somente.

De hora em hora, o finado Rieder, que acolitava os senhores padres e era ajudante do velho Zordo, sacristão da Catedral, saía com uma “matraca” e dava a volta ao redor da Catedral tocando aquele instrumento para relembrar aos fiéis o sofrimento por que Jesus passou, em sinal de respeito pela comemoração da data do passamento do Senhor.

Na parte da tarde, a partir das 15:00 horas, o púlpito da velha Catedral era ocupado por um orador sacro, convidado especialmente para pronunciar o “Sermão das Sete Palavras”, o qual era assistido por uma enorme assistência, que acompanhava com fervor e emoção a narrativa fundamentada nas ultimas palavras ditas por Nosso Senhor Jesus Cristo por ocasião de sua crucificação no Monte do Calvário.

À noite, verdadeira multidão acompanhava a venerável Procissão do enterro, com as paradas nos “passos” determinados, nos quais a Srta. Maria Sultani Farhat entoava com voz grave e triste o “videt omnes” e desenrolava o santo sudário com o rosto de Cristo, na presença das Piedosas mulheres e de Maria Madalena, que era representada pela senhorita Izabel Cuoco, a qual possuía longos cabelos que cobriam parte de seu corpo e que nessa data eram soltos especialmente para que a mesma participasse daquele ato religioso.

As procissões decorriam na mais perfeita ordem, sendo que o encarregado da organização das filas e da disciplina era o Capitão João Bueno, que era mais conhecido por “João Barulho”. Quem não se lembra dessa figura singular que corria por toda a extensão da procissão dando ordens, pedindo respeito e impondo sua autoridade, muitas vezes aos berros, para que tudo corresse a contento e na mais perfeita ordem.

Após a entrada da procissão na Velha Matriz, o povo se punha em fila para beijar a imagem do Senhor Morto e trocar na bandeja de esmolas colocada ao lado do esquife, uma moeda que possuía desde a Sexta Feira Santa do ano anterior, por outra moeda que houvesse sido ali depositada por outro devoto.

Durante a procissão do Senhor Morto, a Banda “XV de Outubro” se esmerava na execução de músicas sacras e respeitosos dobrados fúnebres, enquanto o povo com muita devoção, acompanhava a referida procissão com orações e jaculatórias.

No sábado santo, ou seja, sábado de Aleluia, pela manhã, iniciavam-se as solenidades com a Benção do Fogo Novo, a descoberta das imagens que haviam sido cobertas no inicio da Quaresma, a Benção da Pia Batismal e ao meio-dia, os sinos da Catedral bimbalhavam alegremente, anunciando a Aleluia.

Na madrugada de domingo era realizada a Procissão da Ressurreição, a qual era ansiosamente aguardada por pessoas que passavam a noite na praça, alguns dos quais até dormiam nos bancos para esperar a saída da referida Procissão que era acompanhada por todos aqueles que haviam permanecido à espera daquele ato de fé e de religiosidade.

Entrementes, a Corporação Musical “XV de Outubro” em lugar das musicas tristes que havia tocado nas outras procissões realizadas durante o decorrer da semana, executava alegres dobrados e marchas solenes reverenciando dessa forma a ressurreição do Cristo Salvador. Às 10:00 horas, com a presença do preclaro bispo diocesano, o Domingo da Páscoa era comemorado com solene missa cantada, com a participação de coro e orquestra, encerrando dessa forma, as comemorações da morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Hoje tudo mudou, não existem mais as procissões do “deposito” e do Senhor dos Passos. Não existe mais o João Barulho. Não há mais a Banda “XV de Outubro”. Não se escuta mais o repicar de sinos da Velha Igreja Matriz e nem o “matraquear” da matraca durante a Sexta Feira da Paixão, que naqueles tempos era um dia de luto e de tristeza e hoje é considerado um dia comum, pois o comércio funciona, muitos trabalham nesse dia, tratam-se de negócios, outros vão nadar ou pescar, enfim, não existe mais aquela fé, sólida e arraigada que possuíam os que nos antecederam.

Porém, para todos nós que tivemos a felicidade de viver naquela época, ficaram na nossa memória os fatos e as figuras humanas que passaram, mas que sobrevivem na lembrança daqueles tempos que não voltam mais.

José Carlos Chiarion é advogado, escritor e membro da Associação dos Escritores (ASES). Foi vereador; colunista do Bragança-Jornal Diário; participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.