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BragançaPaulista18 Jan 2018


Colunistas


As viagens rodoviárias no passado
Quarta-Feira,  25 FEV 2015
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 Até a década de 1950, o sistema rodoviário no Brasil ainda estava engatinhando e qualquer viagem se apresentava perigosa e arriscada. Uma viagem de nossa cidade à cidade de São Paulo demorava entre 3,5 a 4 horas de automóvel. Saía-se de Bragança bem cedo. A estrada era cheia de curvas e abismos de ambos os lados e isso preocupava os motoristas e passageiros.

Como a estrada passava por dentro de Atibaia, a maioria dos motoristas parava para tomar um cafezinho e descansar as pernas num bar de propriedade de nosso conterrâneo Valentim Zago, situado na praça central da cidade. Ao chegar em Mairiporã, que naquele tempo chamava-se Vila de Juquery, os choferes paravam geralmente num bar e restaurante situado ao lado de um posto de gasolina, para os passageiros tomarem um café, ir ao banheiro ou saborear um salgadinho. Dessa forma o motor do carro esfriava e necessitava, na maioria das vezes quando ali chegava, encher o radiador de água.

De Mairiporã, subia-se a serra do Juquery, o que era uma aventura. Uma forte cerração na maioria das vezes impedia a visibilidade, exigindo cuidado e a mudança para a marcha lenta. Naquele trecho havia grandes matas que circundavam a estrada em quase toda a sua extensão, um dos motivos das cerrações e, pelo alto grau de umidade daquela região, a sua parte mais alta ficou conhecida como Mata Fria.

Ainda hoje isso acontece em alguns trechos daquela serra, que não mudou de nome. Finalmente chegava-se em São Paulo. Saindo da Serra da Cantareira entrava-se no Bairro do Tucuruvi, passava-se por Santana e pela Avenida Tiradentes, pois o destino era a Rua Mauá, onde paravam as “jardineiras” (assim eram chamados os ônibus) que faziam o percurso de Bragança à Capital do Estado.

Naquele tempo, os ônibus que faziam a linha de Bragança a São Paulo e vice-versa, cuja empresa pertencia a Gastão Ferreira Bueno e Estelita Ribas, tinham seu ponto final na Praça José Bonifácio, no trecho que depois passou a denominar-se Praça Raul Leme.

A agência para venda de passagens ficava em um prédio onde anteriormente tinha sido a Agência Chevrolet, ao lado da atual Farmácia Água Viva, na Praça Raul Leme. Depois mudou-se para um prédio ao lado de onde hoje se situa uma das Lojas Humanitarian na mesma praça. O passageiro fazia sua reserva, o respectivo pagamento e já recebia a passagem para a viagem.

O ônibus partia da agência meia hora antes do horário marcado. Aqueles que residiam nas ruas centrais aguardavam o veículo passar defronte suas casas, onde paravam para pegar o passageiro e, na volta, os moradores no centro eram entregues em seus domicílios.

A maioria dos viajantes, que traziam volumosas malas com amostras e vinham fazer vendas na cidade, desciam defronte o Hotel Carvalho ou do Hotel Central, outros preferiam a Rua do Mercado, hoje Rua Cel.Theofilo Leme, defronte o Mercado Municipal e os demais, no ponto final. Uma outra viagem que durava mais de 10 horas era aquela que se fazia para a cidade de Aparecida do Norte. A estrada de terra batida trazia inúmeros cuidados ao chofer que arcava com a responsabilidade de levar seus passageiros ao lugar destinado e trazê-los sãos e salvos para casa.

O caminho que era percorrido para se chegar a Aparecida partindo desta cidade era o seguinte: saí-se de Bragança geralmente pela madrugada, chegava-se em São Paulo e daí, pelo Bairro da Penha, dirigia-se à Estrada São Paulo-Rio (existente na época), passando por Poá, Mogi das Cruzes, Jacareí, São José dos Campos, Caçapava, Taubaté, Pindamonhangaba e finalmente Aparecida do Norte.

Nem é preciso dizer que, os que faziam essa viagem tinham que ficar alguns dias naquela cidade para depois enfrentar a volta, não só em virtude do cansaço causado pela estafante jornada, como também para ficar por mais algum tempo na cidade onde foi encontrada a imagem de Nossa Senhora de Aparecida.

Existia desde aquela ocasião uma gruta localizada entre as cidades de Jacareí e São José dos Campos, com uma imagem de Nossa Senhora e ao lado da referida gruta havia um gramado com bancos, onde os viajantes aproveitavam para descansar e fazer um piquenique, costume naquela época. As famílias levavam cestas com virado de frango ou de lombo, sanduíches de vários tipos, empadinhas, coxinhas e sucos, que eram consumidos pelos famintos viajantes. Hoje, essa gruta fica dentro do perímetro urbano de São José dos Campos, ao lado de um bar e restaurante.

O tempo foi passando, o progresso veio chegando. Foram construídas as rodovias Presidente Dutra, D. Pedro I e a Fernão Dias, que liga Belo Horizonte a São Paulo. Uma viagem à Capital do Estado hoje é feita em pouco mais de uma hora e para Aparecida do Norte é realizado o percurso em pouco mais de duas horas.

Não há mais necessidade de parar em Mairiporã para encher de água o radiador do carro quando se vai à Capital e tampouco ir primeiro a São Paulo quando se viaja para a Aparecida do Norte ou qualquer outra cidade situada no Vale do Paraíba.

Entretanto, fica para recordação e saudade de muitos dos nossos conterrâneos, a lembrança dos destemidos choferes de táxis da época em que uma viagem para São Paulo era uma aventura e um fato comentado, pois, quando o viajante era uma pessoa ilustre ou um político em evidência, a viagem era noticiada pelo jornal local que desejava ao viajante votos de uma feliz viagem e um breve regresso. Esses fatos também fazem parte de nossa história.

José Carlos Chiarion é advogado, escritor e membro da Associação dos Escritores (ASES). Foi vereador; colunista do Bragança-Jornal Diário; participou da fundação e foi presidente da Associação Bragantina de Imprensa (ABI). É autor do livro “Um Pouco da Nossa História”.