BJD
32 máx 18 min
BragançaPaulista16 Jan 2018


Colunistas


Charlie Hebdo passou do limite?
Quarta-Feira,  14 JAN 2015
Tamanho dos caracteres

 Muitas charges, inúmeros problemas. E quantos problemas! Será que há um limite moral para a liberdade de expressão? Houve exagero dos artistas? Vou dar a minha opinião como artista e como um cidadão qualquer. Sim, acho que houve exageros por partes dos artistas.

Entendo que, apesar do sagrado direito de liberdade de expressão, há um limite: o do bom senso. Em quase tudo temos que ter bom senso quando se vive em sociedade; o nosso direito começa onde termina o do outro. Vi algumas charges do Charlie Hebdo e eles pegam pesado; carregam nas tintas, e uma em especial, como católico, me chocou: charge sobre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Foi um desenho muito escrachado, pornográfico e que agride a Instituição da Sagrada Igreja Católica e também aos fiéis. Mas nós vemos, achamos engraçado ou repudiamos e a vida segue. No caso dos Islâmicos, eles não admitem qualquer personificação de Maomé, seja em desenho, gozação, charge ou mesmo em filme; aliás, há um filme sobre Maomé; o profeta não aparece nas cenas e somente insinuam sua presença; inclusive no início desse filme se dá uma explicação sobre isso, em respeito aos Islâmicos.

Venho da geração que viveu, cresceu e estudou sob o regime militar, quando éramos censurados em tudo. Sou, logicamente, a favor da sagrada liberdade de expressão, sem censura. Falo o que quero, porém, posso ser processado e pagar pelo que disse.

É assim que funciona numa democracia plena como a nossa. Passar do limite do bom senso, agredindo a religião deles e já sabendo que historicamente são insanos e vão às ultimas consequências, é nesse ponto que me refiro à prudência no excesso. Poderiam então dizer: Estamos em nossa terra e eles são imigrantes, se não gostaram que se retirem do país, porém a coisa transcende fronteiras neste mundo globalizado.

Salman Rushdie, um escritor indiano, vive escondido até hoje por ter escrito “Os Versos Satânicos”, em 1989, falando do Alcorão. O chargista dinamarquês Kurt Westergaard, em 2010, fez charges sobre Maomé e até hoje vive escondido e sob proteção. Portanto já havia sinalização que a insanidade poderia ser “liberada”; a própria sede do jornal Charlie Hebdo já havia sido incendiada, tudo indica, por islâmicos ofendidos. Há muitos islâmicos na França oriundos das colonizações; uma das principais é a Argélia.

Estou aqui escolhendo as palavras para dizer que nada justifica o atentado terrorista, porém poderia ser evitado. Aquela sociedade, como a nossa, agrega uma grande diversidade de raças, crenças e etc; manter o bom senso para uma convivência fraterna e respeitosa poderia ter sido levada a efeito. No primeiro momento, na comoção mundial, não avaliamos as causas, simplesmente nos revoltamos, eu inclusive, depois analisamos e concluímos que era uma tragédia anunciada.

Parece que haverá uma nova edição do jornal Charlie Hebdo, hoje, com varias charges novas sobre o Islã e Maomé. Nessa primeira capa terá Maomé segurando um cartaz dizendo: “Eu sou Charlie”. Essa tiragem terá três milhões de exemplares contra 60 mil das edições anteriores ao ataque.

O confronto está aberto, reafirmando a liberdade de expressão, mas também é a renegação do bom senso. Que Jesus, Maomé, Allah, Buda, Bezerro de ouro, Sol e outros Deuses e profetas nos ajudem. Essa novela, parece, terá outros capítulos, infelizmente.

Djalma Fernandes é artista plástico, professor de desenho e pintura, presidente da Associação Bragantina de Artes Plásticas, comerciante de materiais artísticos e colunista do Bragança Jornal Diário.