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BragançaPaulista22 Jan 2018


Colunistas


O que o Carnaval ignora
Quinta-Feira,  21 FEV 2013
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 (...) Descemos mais, em uma noite linda, embora cheia de confusão nas grandes cidades: era o “reinado de Momo”, que içou a bandeira do seu domínio por três dias e noites, nos quais os instintos inferiores se agitam na mente e nos atos de todas as criaturas que pulam desenfreadamente nas ruas e nos salões, embriagados pela maneira extravagante de distrair.

Mulheres quase nuas e homens que não mediam o comportamento, deixavam extravasar o que realmente vibrava no recôndito de suas consciências. Certamente que era uma alegria coletiva, mas inflamada pela corrupção.

O carnaval é um saco de frutas deterioradas; no entanto, tem sementes que podem gerar plantas sadias. É o que devemos esperar, com toda confiança nos céus.

Descemos em uma grande capital e penetramos em uma casa simples, em que sobressaía o asseio. A família pertencia à classe média. O irmão encarnado que estava na condição de chefe da família, estava assentado em uma cadeira de balanço, pensando e formulando ideais elevados. Em torno dele via-se com facilidade uma variação de cores, que lhe garantiam os bons sentimentos.

Em dado momento, foram entrando quatro filhos, já com idade que não exigia muitos cuidados por parte dos pais. Alegres, como sói acontecer com os jovens, trocavam abraços dentro da maior fraternidade e logo foram falando ao pai sobre a ideia, já deliberada por eles, de pular naquele último dia de carnaval. Já tinham escolhido as fantasias, cujos preços eles traziam para a sua aquiescência, exigindo também o dinheiro para pagar.

O velho ouviu sem perder a serenidade e esboçando um sorriso respeitoso, falou com doçura aos filhos amados: — Meus filhos, espero de vocês um entendimento melhor. Venho lendo, há alguns meses, obras onde se alicerça a Doutrina Espírita, uma das quais é esta em minhas mãos, que modificou um pouco a minha vida, intuindo certamente em meus pensamentos.

Eu, como vocês são testemunhas, já gastei muito dinheiro em muitos carnavais. Agora mudei de opinião e o dinheiro que vocês e eu iríamos gastar nestes três dias de loucura, já gastei todo, não com fantasias, mas com a realidade. Mostrarei o que comprei, e estou muito satisfeito porque a consciência aprovou o meu gesto, bem como o coração. Peço a Deus para que vocês me entendam.

E abrindo a porta de um aposento, mostrou vinte sacolas abastecidas com gêneros de variadas espécies, com nomes desconhecidos para eles, escritos em cartões. Dois rapazes e duas moças, antes eufóricos, transformaram-se, no mesmo instante, fecharam as caras, deram respostas mal-educadas e saíram os quatro praguejando contra o velho pai renovado em Cristo.

O homem, que não tinha perdido a serenidade antes, começou a se alterar; o seu coração batia descompassado, mas ele não perdeu a confiança, e o pensamento buscou a Deus nas asas do éter. Entretanto, nós já estávamos ao seu lado, atentos ao pedido de socorro, que ele fez com toda humildade.

Kahena ajoelhou-se aos seus pés e beijou as suas mãos, com reverência, diante da sinceridade da sua mudança de atitude. Logo, as mãos do pai aflito se iluminaram. Ele, instintivamente, as colocou sobre o peito, e o coração obedeceu, voltando ao ritmo habitual. Fernando levou as mãos às suas costas e aplicou-lhe longos passes, dispersando energias que o incomodavam.

Miramez começou a arfar o peito em uma respiração ordenada e aplicou o sopro magnético em direção ao cérebro do companheiro referido, enquanto os nossos outros companheiros mantinham-se em oração, no silêncio que a paz requer. No mesmo momento, o pai de família sentiu-se reconfortado, olhou para o alto, mas nada disse. Lágrimas escorriam em suas enrugadas faces, conduzindo frases a Deus, no segredo que somente Ele sabe ler. Aquele irmão levantou-se alegre e falou baixinho:

—Tomei a atitude e já está tomada. Não recuo, e peço a Deus e aos Espíritos que me ouvem, para me ajudarem a vencer todos os obstáculos que, porventura, apareçam e que tendam a me fazer recuar. Estou com Deus, e certamente Deus está comigo. Viva Jesus!

Empenhou-se em carregar as sacolas para o seu carro, que já estava na porta. Daí a instantes, chegou um vizinho e, de boa vontade, passou a ajudá-lo. A caminho do trabalho programado, o bondoso pai narrou para o seu amigo o motivo que o levou a tomar aquela atitude, naqueles dias.

Tudo tinha começado com um sonho que ele teve com a sua falecida esposa, alma que ele tanto amava, e que lhe fizera o pedido de ajuda aos necessitados.Ele não podia deixar de fazer o que ela desejara. A razão não deixava dúvidas a respeito da veracidade do sonho.

Acompanhamos o carro até uma grande favela onde as sacolas seriam entregues. Bateram à porta de uma casinha humilde, e logo uma mulher abriu a porta; tinha os olhos salientes, cabelos mal cuidados, e notava•se que ela tinha chorado muito. Cinco filhos levantaram para ver quem era, em estado de grande penúria.

- Mãezinha Lena, eu quero comer! Eu quero comer! Eu estou com fome!

Ela chorava também, acolhendo o pequerrucho ao colo e dizendo com carinho:

- Dorme, meu filho; amanhã você comerá, se Deus quiser!

Os dois homens a serviço da caridade fizeram grande esforço para disfarçar as emoções, e o idealizador do trabalho de assistência falou:

-Minha senhora, não chore mais. Deus ouviu suas lágrimas de mãe aflita. Viemos, em nome d’Ele e de Jesus, trazer esta sacola. Os seus filhos não precisam dormir, para comer amanhã. Eles irão se alimentar agora, em nome do amor!

A última palavra quase não saiu, sua voz estava embargada de emoção.

Pediu licença e foi entrando com o seu companheiro de trabalho, colocando tudo em cima de uma pequena mesa. As crianças começaram a saltar de alegria, dizendo:

— Foi o papai quem mandou, não foi, mamãe?

Os benfeitores se retiraram para levar auxílio a outras famílias. Aproximei-me do guia da casa, que irradiava de alegria. Ele disse:

- Eu fiz o que estava ao meu alcance em favor de dona Lena, a quem muito amamos. Tiramos várias vezes da sua mente a ideia de suicídio; contudo, esta noite ela ia se suicidar mesmo. Não suportava mais ouvir os filhos chorarem e os recursos se esvanecerem. Ela está doente, sem condições sequer de levá-los à rua para esmolar.

Além do mais, o ambiente de festa não favorece a esse gesto de humildade. O povo está cego por influências negativas e os pequenos estariam sujeitos a muitas outras coisas, o que desaconselha a saída de casa. E acrescentou:
- O marido foi morto meses atrás.

No mesmo momento, lembrei-me do primeiro verso sobre a caridade do poeta paraibano, que peço licença para repetir:

No universo a caridade
Em contraste ao vício infando
É como um astro brilhando
Sobre a dor da humanidade.

Logo vi Kahena e Celes entrando com fluidos luminosos nas mãos, entregando-os a Miramez, que começou a aplicá-los nas narinas de dona Lena. Ela, sentindo um leve e agradável aroma, monologa no centro d’alma: “Meu Deus, tive a impressão de que fui auxiliada por um médico! Que coisa esquisita!... Deve ser a emoção que me tomou quando vi aqueles homens me ofertando estes alimentos.

Ainda não estou acreditando! Foi Deus ouvindo a minha dor”. E tornou a chorar, mas desta vez as lágrimas foram diferentes: de gratidão às alturas imensuráveis dos Céus.

Já que tinha se despedido dos homens bons, começou a trabalhar junto aos filhos, preparando um jantar farto, aquele que Deus enviara. Mas, antes, os meninos já trituravam umas bolachas que acharam embrulhadas, e alguns pães que estavam à vista.

Pelo sinal de Miramez, entendemos que era hora de partir.

Livro: Iniciação – Viagem Astral
João Nunes Maia, pelo Espírito Lancellin
Editora Espírita Fonte Viva